O rato silvestre e o rato caseiro
Um rato silvestre era amigo de um rato caseiro.
E o caseiro, ao ser convidado pelo amigo,
foi ao campo sem demora para um jantar.
E dizia, enquanto comia cevada e trigo:
“Sabe, amigo, você leva vida de formigas.
Pelo visto, eu é que tenho recursos fartos,
e todos ao seu dispor, é só vir comigo”.
E no mesmo instante se foram os dois.
E o caseiro ofereceu ervilhas e trigo,
junto com tâmaras, queijo, mel e frutas.
Maravilhado, o outro muito o bendizia,
enquanto protestava contra a própria sorte.
Mas, quando quiseram começar a refeição,
uma pessoa abriu a porta de supetão.
Com o rangido, os dois saltaram assustados
e foram para dentro das fendas os pobres ratos.
E quando de novo iam pegar figos secos,
outra pessoa veio lá pegar um troço.
Assim que de novo avistaram a pessoa,
num salto se ocultaram dentro de um buraco.
Então, o rato silvestre, apoucando a fome,
soltou um gemido e disse para o outro:
“Passe bem, amigo, e coma sua fartura,
degustando seus manjares com deleite,
e com perigos e também com sobressaltos.
Comendo cevada e trigo, eu, o coitado,
sem desassossegos vou viver e sem sustos!”.
A fábula mostra que levar vida frugal e viver sem cuidados vale mais que viver no luxo, entre medos e aflições.
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 472-473