Esopo 334

O rato silvestre e o rato caseiro

Um rato silvestre era amigo de um rato caseiro.

E o caseiro, ao ser convidado pelo amigo,

foi ao campo sem demora para um jantar.

E dizia, enquanto comia cevada e trigo:

“Sabe, amigo, você leva vida de formigas.

Pelo visto, eu é que tenho recursos fartos,

e todos ao seu dispor, é só vir comigo”.

E no mesmo instante se foram os dois.

E o caseiro ofereceu ervilhas e trigo,

junto com tâmaras, queijo, mel e frutas.

Maravilhado, o outro muito o bendizia,

enquanto protestava contra a própria sorte.

Mas, quando quiseram começar a refeição,

uma pessoa abriu a porta de supetão.

Com o rangido, os dois saltaram assustados

e foram para dentro das fendas os pobres ratos.

E quando de novo iam pegar figos secos,

outra pessoa veio lá pegar um troço.

Assim que de novo avistaram a pessoa,

num salto se ocultaram dentro de um buraco.

Então, o rato silvestre, apoucando a fome,

soltou um gemido e disse para o outro:

“Passe bem, amigo, e coma sua fartura,

degustando seus manjares com deleite,

e com perigos e também com sobressaltos.

Comendo cevada e trigo, eu, o coitado,

sem desassossegos vou viver e sem sustos!”.

A fábula mostra que levar vida frugal e viver sem cuidados vale mais que viver no luxo, entre medos e aflições.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 472-473

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