Esopo 226

O lenhador e Hermes

Um homem estava cortando lenha às margens de um rio, quando deixou cair na água seu machado, que foi levado pela correnteza. Sentado no barranco, ele ficou a chorar, até que Hermes se compadeceu, foi até lá e, ao saber do motivo de seu pranto, desceu no rio e voltou com um machado de ouro. Logo após, o deus lhe perguntou se aquele era seu machado, mas ele disse que não, que não era aquele. Na segunda vez, Hermes trouxe um machado de prata e perguntou se era aquele que o lenhador tinha deixado cair no rio. E, como ele negou que fosse aquele, Hermes lhe trouxe, na terceira vez, o machado dele, que o homem reconheceu que era mesmo o seu. Impressionado com sua honestidade, Hermes lhe deu de presente todos os três machados. O lenhador aceitou os presentes e, mais tarde, quando foi ter com seus companheiros, contou-lhes detalhadamente o sucedido. Então um deles, que estava de olho grande nessa história, decidiu viver a mesma experiência: pegou um machado, foi à beira do mesmo rio e, enquanto cortava lenha, deixou de propósito cair o machado na correnteza. Depois, sentou-se a chorar. E, quando Hermes apareceu e lhe perguntou o que havia ocorrido, ele citou a perda do machado. Mas, assim que Hermes retirou do rio um machado de ouro e lhe perguntou se era aquele que ele havia perdido, o homem, de olho no lucro, mais do que depressa falou que era aquele. O deus, porém, não o recompensou e também não lhe entregou o que lhe pertencia.

A fábula mostra que a divindade ampara os justos tanto quanto hostiliza os injustos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 327-328

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