Esopo 184

O Inverno e a Primavera

O Inverno zombou da Primavera e criticou-a, dizendo que, tão logo ela surgia, ninguém mais tinha sossego, pois quem gostava de colher flores e lírios, ou então de fazer girar uma rosa diante dos olhos ou colocá-la nos cabelos, ia para os prados e bosques, enquanto outros, se tinham chance, tomavam um navio e cruzavam o mar, para fazer visitas. Era assim porque ninguém mais se preocupava com ventos nem com enchentes. “Eu, ao contrário”, prosseguiu o Inverno, “pareço um comandante ou um senhor autoritário, e faço os homens olhar não para o céu, mas para baixo, para o chão. Provoco neles o medo e o tremor, e há ocasiões em que os obrigo a passar os dias dentro de casa.” “Mas é justamente por isso”, retrucou a Primavera, “que os homens ficam alegres quando você vai embora. Quanto a mim, eles acham lindo até meu nome, ou melhor, por Zeus, acham que ele é o nome mais lindo! Tanto é que, quando me ausento, eles me conservam na lembrança e, quando apareço, eles se enchem de alegria.”

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 274

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