A águia e a raposa
Uma águia e uma raposa tornaram-se amigas e resolveram morar perto uma da outra, fazendo do convívio uma garantia da amizade. E, assim, uma subiu bem no alto de uma árvore e fez seu ninho, enquanto a outra penetrou numa moita que havia ao pé da árvore e deu cria. Certa vez, porém, a águia estava precisando de comida e, assim que a raposa saiu para caçar, ela desceu voando à moita, apanhou as crias da raposa e devorou-as em companhia de seus filhotes. Quando a raposa voltou e percebeu o que havia ocorrido, afligiu-se não tanto pela morte de seus filhos como pela impossibilidade de vingar-se, pois, sendo ela um animal quadrúpede, era incapaz de perseguir um alado. Por isso, ficou de longe amaldiçoando o inimigo, que é só o que resta aos impotentes e fracos. Aconteceu, porém, que não demorou para a águia prestar contas de seu crime contra a amizade. Estando algumas pessoas no campo a imolar uma cabra, ela desceu voando, carregou do altar uma víscera em chamas e levou-a para o ninho. Nisso bateu um vento forte e, a partir de uma palhinha fina e seca, acendeu-se uma chama forte. Com isso, os filhotes, que ainda não sabiam voar, caíram queimados no chão. Então a raposa correu e, diante da águia, comeu todos eles.
A fábula mostra que os que violam amizade, mesmo um pacto de que escapem de ser punidos por suas vítimas impotentes, jamais se livram do castigo divino.
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 40-41