Bábrio 1.107

O leão e o rato

Um leão caçou um rato e estava prestes a jantá-lo,

quando o desditoso ladrão devasta-casa, à beira da morte,

tais palavras pôs-se a murmurar suplicante:

“Cervos e touros chifrudos é o que convém a ti

caçar, e encher a pança com essa carne; 5

um rato como refeição nem para tocar a ponta

de teus lábios será suficiente. Mas imploro-te, poupa-me.

Apesar de pequenino, honrar-te-ei com um favor igual.”

A rir a fera deixou que o suplicante continuasse vivo.

E tendo caído nas mãos de jovens amantes da caça 10

foi apanhado na rede e, abatido, acabou amarrado.

Então o rato pulou sorrateiro de um buraco,

com os minúsculos dentes serrou o nó resistente e

soltou o leão. Beneficiado com o direito de contemplar a luz

o rato, ao salvar-lhe a vida, lhe deu justa recompensa. 15

     A fábula é clara para os homens que raciocinam bem:

salvar os pobres, e não perder as esperanças neles,

se até um leão apanhado em armadilha um rato salvou.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Deixe um comentário