O leão e o rato
Um leão caçou um rato e estava prestes a jantá-lo,
quando o desditoso ladrão devasta-casa, à beira da morte,
tais palavras pôs-se a murmurar suplicante:
“Cervos e touros chifrudos é o que convém a ti
caçar, e encher a pança com essa carne; 5
um rato como refeição nem para tocar a ponta
de teus lábios será suficiente. Mas imploro-te, poupa-me.
Apesar de pequenino, honrar-te-ei com um favor igual.”
A rir a fera deixou que o suplicante continuasse vivo.
E tendo caído nas mãos de jovens amantes da caça 10
foi apanhado na rede e, abatido, acabou amarrado.
Então o rato pulou sorrateiro de um buraco,
com os minúsculos dentes serrou o nó resistente e
soltou o leão. Beneficiado com o direito de contemplar a luz
o rato, ao salvar-lhe a vida, lhe deu justa recompensa. 15
A fábula é clara para os homens que raciocinam bem:
salvar os pobres, e não perder as esperanças neles,
se até um leão apanhado em armadilha um rato salvou.
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]