Bábrio 1.103

O leão velho e a raposa

Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça

(pois há muito tempo já adentrara a velhice),

no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa

debilitada por doença, simulando respiração ofegante

e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5

Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;

todos se condoeram da enfermidade do leão

e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.

A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,

e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10

Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância

detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”

E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!

Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!

Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15

consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”

“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.

Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais

e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”

     Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20

mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Deixe um comentário