O leão velho e a raposa
Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça
(pois há muito tempo já adentrara a velhice),
no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa
debilitada por doença, simulando respiração ofegante
e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5
Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;
todos se condoeram da enfermidade do leão
e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.
A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,
e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10
Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância
detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”
E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!
Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!
Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15
consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”
“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.
Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais
e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”
Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20
mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]