O rato do campo e o rato da cidade
Dois ratos — um que sobrevivia no campo
e o outro que se entocava numa rica despensa
decidiram compartilhar entre si os seus modos de vida.
Primeiro foi o rato doméstico que chegou para jantar
no campo, quando a plantação floria verdejante. 5
Enquanto ia comendo minguadas e úmidas raízes
de grãos, misturadas em escuros torrões,
dizia: “Levas a vida de uma pobre formiga,
devorando no fundo da terra magros cereais.
Mas eu disponho de recursos em quantidade e de sobra; 10
comparado a ti, eu moro no corno de Amalteia.
Se vieres em minha companhia, te fartarás como quiseres.
Deixa para a toupeira o trabalho de escavar a terra!”
E levou embora o rato lavrador, após convencê-lo
a enfiar-se na casa do homem por baixo da parede. 15
Então indicou-lhe onde ficava a pilha de mantimentos,
onde estava o estoque de grãos e as vasilhas de figos,
os jarros de mel e os cestos de tâmaras.
E ele, deliciado com aquilo tudo, encheu-se de estímulo e
quando foi arrastar de um cestinho um naco de queijo, 20
uma pessoa abriu a porta. Ele deu um salto, afastando-se,
e fugiu assustado para dentro do buraco estreito,
dando guinchos confusos e comprimindo o anfitrião.
Esperou um pouco, deu uma espiada lá fora e, então,
cuidou de apanhar um figo de Camiro. 25
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]