Bábrio 2.108

O rato do campo e o rato da cidade

Dois ratos — um que sobrevivia no campo

e o outro que se entocava numa rica despensa

decidiram compartilhar entre si os seus modos de vida.

Primeiro foi o rato doméstico que chegou para jantar

no campo, quando a plantação floria verdejante. 5

Enquanto ia comendo minguadas e úmidas raízes

de grãos, misturadas em escuros torrões,

dizia: “Levas a vida de uma pobre formiga,

devorando no fundo da terra magros cereais.

Mas eu disponho de recursos em quantidade e de sobra; 10

comparado a ti, eu moro no corno de Amalteia.

Se vieres em minha companhia, te fartarás como quiseres.

Deixa para a toupeira o trabalho de escavar a terra!”

E levou embora o rato lavrador, após convencê-lo

a enfiar-se na casa do homem por baixo da parede. 15

Então indicou-lhe onde ficava a pilha de mantimentos,

onde estava o estoque de grãos e as vasilhas de figos,

os jarros de mel e os cestos de tâmaras.

E ele, deliciado com aquilo tudo, encheu-se de estímulo e

quando foi arrastar de um cestinho um naco de queijo, 20

uma pessoa abriu a porta. Ele deu um salto, afastando-se,

e fugiu assustado para dentro do buraco estreito,

dando guinchos confusos e comprimindo o anfitrião.

Esperou um pouco, deu uma espiada lá fora e, então,

cuidou de apanhar um figo de Camiro. 25

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

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