Bábrio 2.111

O asno que carregava sal

Um mascate que possuía um asno ouviu dizer

que no litoral o sal estava com bom preço,

e resolveu comprá-lo. Após carregar fartamente

o asno, tomou o caminho de volta. A viagem prosseguia

e de repente o asno sem querer resvalou num riacho. 5

Como parte do sal se diluísse, ele se sentiu aliviado,

ergueu-se com facilidade e sem esforço chegou

à sua região, no interior. Após a venda do sal, de novo

o mascate levou o asno para carregá-lo com mais carga

e tornou a colocar sobre ele o fardo. E quando ele, afadigado, 10

ia cruzar a correnteza, justo onde caíra na vez anterior,

foi ao chão de propósito. Novamente a carga se dissolveu

e ele se ergueu leve, alegre como se tivesse lucrado alguma coisa.

Então o mascate pensou bem e, numa outra vez, retornou

com uma carga ainda maior, mas de esponjas porosas, 15

extraídas do mar; do sal ele não quis mais saber.

E o asno, ao aproximar-se do córrego, matreiramente

caiu de propósito. Mas as esponjas a um só tempo

se encharcaram, a carga inteira aumentou de volume

e ele foi embora carregando um peso dobrado nas costas. 20

[Muitas vezes a gente se dá mal com aquilo com que um dia se deu bem.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

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