Bábrio 2.124

O pássaro e o galo

Um amigo chegou de repente à casa de um passarinheiro,

quando ele se preparava para jantar aipo e segurelha.

Nada havia na gaiola, pois ele não havia ido à caça.

Ele teve o impulso de degolar uma perdiz sarapintada,

domesticada, que mantinha como chamariz de caça, 5

mas ela pediu-lhe que não a matasse, suplicando assim:

“E depois, meu caro, o que farás com a rede,

quando fores à caça? Quem reunirá para ti

um vistoso bando de pássaros gregários?

Ao som de que melodia irás dormir?” 10

Ele então deixou a perdiz e foi decidido

apanhar um galinho de barbicha.

Mas ele, no seu poleiro, soou o cocoricó e disse:

“Como saberás quanto falta para o nascer da aurora,

se matares a mim, teu profeta das horas? Como saberás 15

se Órion do arco de ouro já completou o seu curso?

E de tuas tarefas matinais quem te lembrará,

quando os pássaros têm as asas cobertas de orvalho?”

E o outro disse: “Tu és muito competente em horas,

contudo o meu amigo ali precisa ter o que comer.” 20

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Deixe um comentário