Esopo 326

A raposa e o bode no poço

Uma raposa caiu num poço e viu-se forçada a ficar lá, pois não tinha como vencer a subida. Nisso, um bode, compelido pela sede, foi ao mesmo poço e, ao vê-la, perguntou se a água era boa. Empolgada com a coincidência, ela se estendeu em elogios à água, dizendo que era de boa qualidade, e o incentivou a descer também. E o bode, que naquele momento só tinha olhos para seu desejo, pulou no poço sem maiores cuidados e, enquanto matava a sede, foi examinando a subida com a raposa. Ela disse, então, que já tinha um plano concebido para a salvação de ambos: “Se você topar, apoie suas patas dianteiras na parede e endireite os chifres, que eu vou subir pelo seu dorso e, depois, puxarei também você para cima”. Bastou uma segunda insistência para o bode sujeitar-se prontamente. Então, a raposa foi saltando pelas pernas dele, subiu em seu dorso e, a partir daí, apoiando-se nos chifres, alcançou a boca do poço. E, depois que subiu, foi indo embora. E, como o bode se pôs a recriminá-la por ter desrespeitado o acordo, ela se voltou e disse: “Meu caro, se você tivesse de juízo o mesmo tanto de pelos que tem na barbicha, não teria descido sem antes ter examinado a subida”.

Assim, também, os homens prudentes devem primeiro considerar o desenvolvimento completo de seus projetos, e só depois empreendê-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 461-462

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