Esopo 288

O pastor de cabras e as cabras selvagens

Um pastor tocou suas cabras para o pasto e, ao vê-las confundidas com cabras selvagens, tangeu todas juntas, ao anoitecer, para sua gruta. No dia seguinte, uma forte borrasca o impediu de levá-las à costumeira pastagem. Então ele se pôs a cuidar delas lá dentro: às suas próprias cabras dava comida na quantia exata para elas não sentirem fome, mas às estranhas adicionava muito mais, no intuito de tomá-las para si. Findo o temporal, ele as conduziu todas juntas para o pasto, mas as cabras selvagens, quando alcançaram os montes, puseram-se em fuga. O pastor começou a acusá-las de ingratidão, visto que o estavam deixando após terem recebido tratamento diferenciado. Elas, então, se voltaram e disseram: “Mas é por isso mesmo que ficamos mais alertas, pois se você, desmerecendo suas companheiras de longa data, concedeu privilégios a nós, que só ontem nos tornamos suas conhecidas, é claro que, mais tarde, se outras cabras também surgirem, você dará primazia a elas e não a nós!”.

A fábula mostra que não devemos acolher os afetos que concedem das pessoas privilégios a nós, seus amigos recentes, em detrimento dos amigos de longa data. Devemos considerar que, mesmo que nossa amizade se torne duradoura, elas vão sempre dar preferência para aqueles com quem venham a travar amizade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 410

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