A corça à beira do riacho
Premida pela sede, uma corça foi a uma fonte. Depois que bebeu, fitou sua própria sombra na superfície da água e, vendo que seus cornos eram de bom tamanho e de feitio variado, envaideceu-se deles, mas chateou-se muito com suas pernas, por serem finas e frágeis. E ainda estava pensando nisso, quando, de repente, surgiu um leão, que começou a persegui-la. Ela tratou de fugir em disparada e, enquanto a planície era um descampado, foi tomando a dianteira. Mas quando parou num matagal aconteceu o seguinte: seus cornos se enroscaram nos galhos e ela, sem poder correr, foi agarrada pelo leão. Prestes a morrer, disse para si: “Pobre de mim! Aquelas que eu pensava que fossem me trair me salvaram, enquanto esses em quem eu tinha plena confiança puseram-me a perder!”.
Assim, é frequente que, nos perigos, os amigos suspeitos se tornem salvadores e os que mereciam plena confiança, traidores.
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 163