Esopo 302

O pescador que batia a água

Um pescador chegou a um rio para pescar e estendeu a rede, de modo a cercar a correnteza de uma margem à outra. Em seguida, pôs-se a bater a água com uma pedra amarrada na ponta de uma corda de linho, para espantar os peixes e fazê-los cair distraidamente nas malhas. Então um dos moradores das imediações, ao vê-lo agindo daquele modo, chamou-lhe a atenção por turvar o rio e não permitir que eles bebessem a água limpa. “Mas se o rio não ficar turvo”, respondeu ele, “eu é que terei de morrer de fome!”

Assim, também, os demagogos da cidade têm excelente atuação no momento em que levam as nações à discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 425

Esopo 303

O pescador que tocava flauta

Um pescador, hábil na arte de tocar flauta, pegou suas flautas e redes e foi para o mar. Instalado sobre uma rocha proeminente, começou a tocar, imaginando que os peixes viriam por si mesmos saltando até ele, atraídos pelo som agradável. Mas, embora tivesse insistido bastante, não obteve sucesso. Então se desfez das flautas, pegou a rede, lançou-a na água e pescou muitos peixes. Depois, retirou-os das malhas, sobre a praia, e ao ver que eles estavam pulando disse: “Ô, bichos miseráveis, quando eu tocava flauta vocês não dançavam, e agora que eu já parei estão fazendo assim!?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 426

Esopo 304

Os pescadores e o atum

Um grupo de pescadores saiu para pescar e, depois de longo tempo de sofrimento, não pegou nada. Desanimados, os pescadores ficaram sentados no barco. Nisso, um atum, que estava sendo perseguido, surgiu fazendo muito espalhafato e, sem se dar conta, saltou para dentro da barca. Então eles o pegaram, levaram à cidade e o venderam.

Assim, muitas vezes o que a arte não proporciona a sorte concede como prêmio.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 427

Esopo 305

Os pescadores que pescaram uma pedra

Um grupo de pescadores estava puxando uma rede. E, como ela estivesse pesada, eles começaram a dançar, eufóricos, imaginando que a pesca era farta. Quando, porém, arrastaram a rede para a praia e viram que os peixes eram poucos e que a rede estava cheia de paus e pedras, ficaram desacorçoados. O desânimo advinha não tanto do fato em si quanto da expectativa frustrada. Foi então que um deles, uma pessoa idosa, lhes disse: “Companheiros, vamos parar com isso! A alegria, ao que parece, é irmã da tristeza, e nós, que de antemão ficamos tão felizes, precisávamos de qualquer modo experimentar também algum desgosto!”.

Pois é. Portanto, também nós quando vemos a facilidade mudanças na vida, com que se dão as não devemos nos deleitar sempre com as mesmas coisas, considerando que, depois da bonança, é inevitável que venha a tempestade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 428

Esopo 306

A pomba e a gralha

Uma pomba criada em pombal se gabava de sua fertilidade. Então uma gralha, ao ouvir suas palavras, disse: “Mas pare com essa gabolice, minha cara, pois quanto mais filhotes você tiver, maior número de escravos terá que deplorar”.

Assim, também, dentre os servos, os mais desafortunados são os que geram filhos na escravidão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 429

Esopo 307

A pomba sedenta

Uma pomba, premida pela sede, viu uma vasilha de água desenhada num quadro. Pensando que fosse de verdade, precipitou-se com muito estardalhaço e, quando se deu conta, havia se chocado contra o quadro. Deu-se, então, que as bordas de suas asas se quebraram e ela caiu no chão, sendo, em seguida, apanhada por uma pessoa que estava por ali.

Assim, alguns homens que, movidos por um violento desejo, empreendem tarefas imprevidentemente encaminham-se à perdição.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 431

Esopo 308

A porca e a cadela

Uma porca e uma cadela se desentenderam e estavam num bate-boca. A porca jurava por Afrodite que, se a cadela não parasse, iria rasgá-la a dentadas. E a cadela dizia que a porca não estava fazendo a coisa certa, pois Afrodite a odiava, a ponto de não deixar entrar em seu templo uma pessoa que tivesse comido carne de porco. Então a porca deu o troco: “Sua chata! Não é por ódio que ela age assim comigo, mas por cuidado, para que ninguém me mate!”.

Assim, os oradores vezes convertem em avisados muitas elogios os insultos proferidos pelos adversários.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 432

Esopo 309

A porca e a cadela [disputando fertilidade]

Uma porca e uma cadela estavam discutindo para ver quem era mais fértil. E quando a cadela disse que era a única dentre os quadrúpedes a ter uma gestação curta, a porca retrucou: “Mas, ao dizer isso, reconheça que suas crias nascem cegas!”.

A fábula mostra que as tarefas devem ser julgadas não pelo tempo despendido, mas pelo bom acabamento.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 433

Esopo 310

Prometeu e os homens

Por ordem de Zeus, Prometeu criou os homens e os bichos. Mas, quando Zeus viu que os animais irracionais eram bem mais numerosos, mandou Prometeu eliminar alguns deles, transformando-os em seres humanos. Prometeu cumpriu a determinação e o resultado foi que aqueles que não foram no início criados como homens têm forma humana, mas almas bestiais.

A fábula reprova o homem irascível e bestial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 434

Esopo 311

A pulga e o atleta

Certa vez uma pulga, num salto, pousou no dedo do pé de um atleta que se exibia num desfile. Saltitante, a pulga sapecou-lhe uma mordida. O atleta se enfureceu e preparou as unhas, pronto para esmagar a pulga, quando ela, num impulso, deu o salto costumeiro e desapareceu, escapando da morte. Ele, então, se lamentou, dizendo: “Ó Héracles, se a coisa é assim contra uma pulga, que amparo terei de você contra meus adversários?”.

Pois é. Portanto, a fábula nos ensina que não devemos de pronto invocar os deuses nas questões insignificantes e inofensivas, mas só nas emergências.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 435