Esopo 342

A rosa e o amaranto

[A fábula mostra] Que é melhor viver bastante satisfeito com o pouco que se tem, do que levar uma vida requintada por um breve tempo e depois morrer, se der o azar de acontecer um revertério.

Um amaranto que desabrochara ao lado de uma rosa lhe disse: “Que flor formosa você é, e atraente para deuses e homens! Felicito-a por sua beleza e por seu perfume”. Então, ela respondeu: “Amaranto, eu vivo por um breve tempo e feneço, mesmo que não me colham. Mas você, ao contrário, floresce e vive sempre novo assim”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 481

Esopo 343

O rouxinol e a andorinha

Uma andorinha aconselhava um rouxinol a viver sob o mesmo teto, na mesma casa que os homens, como ela própria fazia.* Então, ele disse: “Não quero manter viva na lembrança a dor de meus antigos infortúnios. É por isso que vivo em lugares desertos”.

[A fábula mostra] Que aquele que se afligiu com alguma fatalidade quer evitar até o local onde se produziu a aflição.

* A lembrança de antigos infortúnios que o rouxinol menciona são os episódios do mito de Tereu, Procne (rouxinol) e Filomela (andorinha). Sem a referência mítica, a fábula pode perder o sentido. [n.t.]

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 482

Esopo 344

O rouxinol e o gavião

Um rouxinol estava cantando, como de costume, pousado no alto de um carvalho. Nisso, um gavião o avistou e, precisado de alimento, voou sobre ele e o agarrou. E o rouxinol, prestes a morrer, pediu que o soltasse, dizendo que não era suficiente para encher o estômago de um gavião; já que precisava de alimento, ele devia atacar pássaros maiores. O gavião retrucou: “Mas eu seria um doido se largasse o pasto garantido que tenho nas mãos para ir atrás dos que ainda não apareceram”.

Assim, também, dentre os homens, são irracionais aqueles que, na expectativa de bens maiores, deixam escapar os que estão em suas mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 483

Esopo 345

Os sacerdotes mendicantes

Um grupo de sacerdotes mendicantes tinha um burro sobre o qual costumavam colocar a bagagem quando saíam pelas ruas. Mas um dia o burro morreu de fadiga. Então, eles o esfolaram; com a pele prepararam tambores e passaram a usá-los. E, quando toparam com outros sacerdotes que lhes perguntaram onde estava o burro, responderam que ele estava morto, mas que levava tanta pancada como não tinha levado antes, em vida.

Assim, também, alguns servos, mesmo que se livrem da escravidão, não se desembaraçam dos encargos servis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 487

Esopo 346

A serpente e a águia

Fábula da águia e da serpente, exortando-nos a tomar a iniciativa de prestar favores.

Uma serpente e uma águia estavam engalfinhadas, lutando uma com a outra, quando a serpente se enlaçou na águia, prendendo-a. Um lavrador, ao ver a cena, desenrolou a serpente e deixou a águia ir embora livremente. Ressentida com isso, a serpente verteu veneno na água do salvador da águia. Mas quando o lavrador, descuidado, estava para beber a água, a águia fez um voo rasante e derrubou a taça das mãos dele.

A gratidão permanece à espera dos que fazem o bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 490

Esopo 347

O Sol e as rãs

Era verão e celebravam-se as núpcias do Sol. Todos os animais congratulavam-se com isso, e também as rãs se regalavam. Então, uma delas disse: “Suas bestas, com que vocês se regalam? Se o Sol, sozinho, já faz secar todo o brejo, que desgraça não iremos sofrer se, depois de casado, ele tiver um filhote igual a ele?”.

[A fábula mostra] Que muitas pessoas de espírito leviano se engraçam com o que não tem graça.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 491

Esopo 348

A tartaruga e a águia

Ao avistar uma águia voando, uma tartaruga sentiu vontade de voar também. Então, ela foi ao encontro da águia pedir-lhe encarecidamente que a ensinasse a voar, mediante um pagamento. A águia lhe respondeu que era impossível, mas mesmo assim a tartaruga insistiu, dizendo que o pedido era legítimo. A águia, então, ergueu a tartaruga do chão, levou-a para o alto e soltou-a. Ela despencou sobre uma rocha, onde se estatelou e morreu.

A fábula mostra que muitos homens, no afã de competir com os mais sensatos, saem prejudicados por não lhes terem dado ouvidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 495

Esopo 349

A tartaruga e a lebre

Uma tartaruga e uma lebre queriam disputar para ver quem era mais veloz. Então, fixaram um tempo e um percurso e deram a largada. A lebre, ligeira por natureza, encarou a corrida com displicência e, deitando-se à margem do caminho, adormeceu. E a tartaruga, consciente de sua própria lentidão, não parou de correr. Assim, ultrapassou a lebre, que ficou dormindo, e alcançou o prêmio da vitória.

A fábula mostra esforço vence uma natureza relapsa.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 496

Esopo 350

O tordo no pé de mirto

Num bosque de mirtos vivia um tordo, que de lá não arredava pé, por causa dos frutos adocicados. Então, um caçador, ao notar que ele se regalava naquele local, preparou o visgo e prendeu-o. E ele, ao morrer, disse: “Pobre de mim! Por causa de um doce alimento estou perdendo a vida”.

A fábula é oportuna para homem libertino, que se perde na luxúria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 498

Esopo 351

A toupeira

Uma toupeira (esse é um animal cego) disse para sua mãe: “Estou enxergando!”. E a mãe, para fazer um teste, deu-lhe um grão de incenso e perguntou o que era. Tendo ela respondido que era uma pedrinha, a mãe observou: “Minha filha, você não só está falha da visão como também já perdeu o olfato!”.

Assim, alguns fanfarrões fazem promessas impossíveis e, ao mesmo tempo, se traem nos pequenos detalhes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 499