Bábrio 1.43

O cervo na fonte

Um cervo adulto de patas velozes e chifres vistosos

pôs-se a beber água de um lago sereno.

Ao atentar ali em sua própria sombra,

entristeceu-se por causa do casco e das patas,

mas dos chifres, tão belos, envaideceu-se muito. 5

Mas ali se achava Nêmesis, que vela pelo mundo terreno.

E, de fato, de repente ele avistou caçadores

munidos de redes e cadelas de bom faro.

Ao vê-los, pôs-se em fuga, sem estancar a sede,

e cruzou vasta planície com lépidos passos. 10

Mas tão logo penetrou em densa mata,

enroscou os chifres nos arbustos e acabou caçado.

“O que é isso?”, disse ele, “Pobre de mim, que engano!

Salvaram-me as patas, das quais eu sentia vergonha,

e traíram-me os chifres, dos quais eu me ufanava.” 15

     [Quando fizeres um exame de teus próprios negócios,

por antecipação não consideres segura coisa nenhuma

nem, ao contrário, a menosprezes e nem desanimes.

Às vezes, as convicções nos causam frustrações.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.44

Os três touros e o leão

Três touros estavam sempre pastando juntos.

Um leão, que ficava à espreita para agarrá-los,

ao mesmo tempo que achava que não os venceria,

com palavras fingidas e calúnias criava conflito

e os tornava inimigos; e após separar um do outro 5

teve cada um deles como tranquilo banquete.

     Quando quiseres sobretudo viver livre de perigos,

desconfia dos inimigos, mas conserva sempre os amigos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.45

O pastor e as cabras selvagens

Zeus estava nevando. Então um pastor, fugindo

para uma gruta desocupada, tangia

as cabras vestidas de branco pela espessa neve.

Mas ao encontrar ali cabras selvagens chifrudas

que se enfiaram lá mais rápido, mais numerosas

que as que ele próprio levava, e maiores e mais fortes,

para estas ia lançando um ramo que trazia da floresta,

já as suas ele deixou passando grande fome.

E quando o tempo abriu, essas ele encontrou mortas

enquanto aquelas não ficaram ali, mas deram no pé

em busca de mata impenetrável em áridos montes.

Então o pastor, merecedor de riso, foi para casa

sem cabras; esperançoso de maiores vantagens,

não usufruiu nem das que ele tinha inicialmente.

[A fábula nos ensina a jamais descuidar dos familiares, principalmente por causa de uma vantagem que é incerta.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]