Bábrio 1.53

A raposa e o lobo

Tendo caído nas garras de um lobo, uma pobre raposa

pediu-lhe que a deixasse viva, não matasse uma anciã.

“Se me disseres três frases verdadeiras — diz ele —,

eu prometo por Pã que te deixarei viva.”

E ela: “Primeiro, oxalá não me tivesses encontrado, 5

depois, oxalá fosses cego ao deparares comigo,

e, em terceiro, — disse —  que os anos vindouros

tu não alcances. Não vás topar comigo novamente!”

    [Que muitas vezes as situações críticas surgem para trazer a público mesmo contra a vontade as coisas dignas de silêncio.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.54

O eunuco

Um eunuco foi a um vidente para consulta

a respeito de filhos. O vidente, ao abrir um fígado

consagrado, disse: “Quando vejo isso, te tornas pai,

mas quando vejo tua cara, nem homem pareces.”

[Para aqueles que fazem preces em favor de coisas desnecessárias ou,

ademais, que não podem realizar-se.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.56

Zeus e a macaca mãe

Prêmios para uma bela prole, a todos os animais,

Zeus instituiu, e se pôs a olhar e julgar todos eles. 

Então veio até uma macaca, feito mãe de uma lindeza,

sustendo no colo um miquinho pelado e de cara chata.

O riso, porém, ele moveu entre os deuses. 5

Então ela disse assim: “Zeus sabe a vitória,

mas para mim este é de todos o mais belo.”

    [A fábula me parece indicar a todos isto: toda pessoa

por si mesma julga formoso o que é dela própria.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.58

Zeus e o tonel de bens

Tendo Zeus recolhido todos os bens em um tonel,

tampou-o e o colocou perto de um homem. 

Mas o homem, incontido, com pressa de saber

o que será que havia nele, moveu também a tampa

e deixou que eles voltassem para a morada dos deuses, 5

voando dali e fugindo da terra para o alto.

Apenas ficou a esperança, à qual retinha a tampa

recolocada. Daí que apenas a esperança convive 10

com os homens, comprometendo-se a dar

cada um dos bens que fugiram de nós.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.59

Zeus, Poseidon, Atena e Momo

Zeus e Posidão, dizem, e uma terceira, Atena,

com eles discutia quem criaria uma coisa bela.

Zeus então cria o mais distinto dos animais,

o homem, e Palas uma casa para os homens,

e Posidão, por sua vez, um touro. Foi escolha deles 5

para juiz Momo; pois ele ainda morava entre os deuses.

E ele, como por natureza hostilizava todo mundo,

primeiro foi logo criticando o defeito do touro,

o fato de seus chifres não estarem abaixo dos olhos,

de modo que ele golpeasse vendo [seu alvo]; e do homem, 10

o fato de não ter o peito guarnecido de portas abertas,

de modo que suas intenções fossem vistas pelo vizinho.

E da casa, o fato de não haver rodas de ferro

nos alicerces, de modo que para outros lugares

se deslocassem junto com os donos em viagem. 15

        [O que, portanto, a fábula diz na narrativa?

Tenta fazer algo, e que a inveja não seja juiz.

Nada é totalmente agradável para o criticante.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.60

O rato na sopa

Numa panela de molho destampada caiu um rato

que foi se afogando na gordura e, já expirando,

disse: “Comi, bebi e de todo bem-bom

estou farto. É minha hora certa de morrer.”

     [Que possa, então, haver rato guloso entre os homens,

     desde que não peça um prazer danoso.]     

(A fábula diz) que as desgraças que sobrevém por fatalidade algumas pessoas costumam aplainar com esse tipo de fala.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]