Bábrio 1.72

A gralha e as aves

Íris, a mensageira do céu vestida de púrpura, certa vez

anunciou a instituição, na morada dos deuses, de um concurso

de beleza para os seres alados. Por toda parte a notícia correu logo

e de todos se apossou o desejo dos divinos prêmios.

De certa rocha inacessível a cabras gotejava uma fonte, 5

e a água armazenada era límpida, de verão.

Aí veio ter a raça de todos os pássaros:

eles lavavam seus rostos e suas canelas,

sacudiam as asas, penteavam os penachos.

Também àquela fonte veio ter um gaio, 10

velho, filho de uma gralha: fez apliques com

uma pena de um e outra de outro em seus ombros úmidos,

— era singular seu adorno matizado, de penas de todos eles! —.

e rumou à morada dos deuses, mais ancho que uma águia.

Assombrado, Zeus estava prestes a conceder-lhe a vitória, 15

se a andorinha, ateniense que era, não o desmascarasse,

sendo a primeira a arrancar-lhe uma pena.

Ele então lhe disse: “Não me delates!”

Mas nisso pôs-se a depená-lo a rola, o tordo,

a pega e a cotovia, que brinca nas sepulturas, 20     

e o gavião espreitador de pássaros-filhotes;

As demais fizeram igual e ele como gaio se fez notar.

Filho, adorna a ti próprio com adornos que te pertencem,

pois se te sobressaíres com recursos alheios, serás despojado.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.77

O corvo e a raposa

Estava um corvo pousado com um queijo preso no bico,

quando uma raposa, cobiçando o queijo, matreira

logrou o pássaro com um palavreado assim:

“Ó corvo, tuas asas são belas, teu olhar é penetrante

e teu pescoço é digno de ser visto. Ostentas um peito de águia! 5

Com tuas garras, sobre todos os animais prevaleces.

Tu, um pássaro de tal porte, és mudo e não crocitas!”

O corvo, tocado no coração pelo encômio,

soltou da boca o queijo e ficou a emitir gritos.

E a espertalhona agarrou o queijo e com língua ferina 10

disse: “Tu não eras mudo! Ao contrário, tens voz!

Tens, ó corvo, tudo, tudo; só te falta juízo!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.79

A cadela que carregava carne

Uma cadela roubou carne de um açougueiro

e foi para junto de um rio. Na superfície da água

avistou o reflexo da carne em tamanho muito maior.

Então desfez-se da carne e lançou-se sobre o reflexo.

Não encontrando o reflexo nem a carne que rejeitara, 5

pôs-se a trilhar faminta o caminho de volta.

     [Insegura é a vida de todo homem insaciável

que se consome em vãs esperanças de negócios.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]