Fedro 1.3

A gralha presunçosa e o pavão

Para que ninguém se meta a vangloriar-se com bens alheios

mas, antes, procure levar a vida conforme sua própria condição,

Esopo nos apresentou este exemplo.

Uma gralha, impada de vão orgulho,

pegou do chão as penas que tinham caído de um pavão 5

e se enfeitou. Em seguida, desprezando os seus,

se misturou a um formoso bando de pavões.

Estes, porém, arrancam as penas da ave descarada

e a afugentam a bicadas. Duramente desancada, a gralha,

abatida, pôs-se a voltar para junto dos de sua espécie; 10

repelida por eles, teve de aguentar uma triste infâmia.

Então uma daquelas que ela tinha desprezado antes:

“Se tivesses ficado contente com nossas moradas

e aceitado conformar-se com o que a natureza te dera,

nem terias sofrido aquela afronta 15

nem a tua desgraça sentiria esta repulsa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.4

O cão levando um pedaço de carne por um rio

Perde merecidamente o próprio quem cobiça o alheio.

Um cão, levando a nado por um rio um pedaço de carne,

viu no espelho das águas a sua própria imagem

e, julgando ser outra presa levada por um outro,

quis arrebatá-la; mas sua avidez foi enganada: 5

e deixou cair o alimento que trazia na boca,

e não pôde, é claro, pegar o que desejava.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.5

A vaca e a cabrita, a ovelha e o leão

Nunca é de confiança a sociedade com um poderoso.

Esta fábula atesta a minha afirmação.

A vaca e a cabrita e a ovelha, sofredora de injustiça,

foram sócias do leão nos bosques.

Como eles tinham caçado um cervo de grande tamanho, 5

o leão, feitas as partes, assim falou:

“Eu levo a primeira, visto que me chamo leão;

a segunda dareis a mim, porque sou sócio;

em seguida, porque sou mais forte, virá para mim a terceira;

e se alguém tocar a quarta, cairá em desgraça”. 10

Assim, a maldade sozinha levou a presa toda.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.6

As rãs para o sol

As concorridas núpcias de um ladrão, vizinho seu,

viu Esopo e, de imediato, começou a narrar:

Como um dia o Sol quisesse casar-se,

as rãs ergueram para os astros uma gritaria.

Movido pelo alvoroço, quis Júpiter saber 5

o motivo da queixa. Então, uma habitante do charco

disse: “Agora um só já seca todos os lagos

e nos obriga a morrer desgraçadas numa árida morada.

O que acontecerá então, se ele gerar filhos?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.7

A raposa para uma máscara de tragédia

Uma raposa tinha visto por acaso uma máscara de tragédia:

“Oh, que grande beleza” diz “não tem cérebro!”

Isto foi dito para aqueles aos quais a fortuna atribuiu

honra e glória e tirou o senso comum.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.8

O lobo e a grua

Quem espera dos malvados a recompensa de um serviço prestado,

erra duas vezes: primeiro, porque ajuda os que não merecem;

segundo, porque já não pode escapar sem dano.

Como o osso devorado ficara enroscado na garganta de um lobo,

este, vencido por intensa dor, começou a tentar uns e outros 5

com uma recompensa, para que lhe extraíssem aquele mal.

Finalmente uma grua foi persuadida pelo juramento,

e, confiando à goela dele a longura de seu pescoço,

fez a perigosa operação no lobo.

Como reclamasse o prêmio combinado pelo serviço: 10

“És ingrata”, disse o lobo, “tu que tiraste a cabeça

intacta de minha boca e reclamas uma recompensa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.9

O pássaro dando conselhos a uma lebre

Que é tolice dar conselho aos outros e não se precaver

mostraremos em poucos versos.

Um pássaro recriminava uma lebre que, apanhada por uma águia,

dava sentidos soluços: “Onde está”, diz,

“aquela tua conhecida rapidez? Por que os teus pés pararam assim?” 5

Enquanto falava, um gavião o arrebata, sem que ele se dê conta,

e, enquanto ele grita em vão lamento, o mata.

E a lebre, já meio morta, diz em consolo de sua morte:

“Tu, que há pouco em segurança rias de minha desgraça,

com queixa similar, lamentas o teu destino.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.10

O lobo e a raposa com o macaco como juiz

Todo aquele que se tornou famoso uma vez por uma torpe mentira,

mesmo que diga a verdade, perde o crédito.

Atesta isso uma breve fábula de Esopo.

Um lobo acusava uma raposa pelo crime de furto;

ela negava ter relação com a culpa. 5

Então o macaco se sentou entre eles como juiz.

Depois que um e outro defenderam sua causa,

diz-se que o macaco pronunciou a sentença:

“Tu não pareces ter perdido o que pedes;

quanto a ti, creio que roubaste o que negas lindamente”. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.11

O burro e o leão caçando

O desprovido de valor, quando alardeia com palavras sua glória,

engana os desconhecidos; para os conhecidos, é motivo de zombaria.

Um leão, querendo caçar em companhia de um burro,

camuflou-o entre os ramos e ao mesmo tempo exortou-o

a aterrorizar as feras com sua voz insólita, 5

e ele as pegaria ao tentarem fugir. Então o orelhudo

ergue subitamente um urro com todas as suas forças

e abala os bichos com o inédito portento.

Esses, buscando aterrorizados as saídas conhecidas,

são abatidos pelo terrível ataque do leão. 10

Depois que este se cansou da matança, chama o burro

e manda-lhe conter a voz. Então ele, insolente:

“Que tal te parece o efeito de minha voz?”

“Notável”, diz, “de tal modo que, se eu não conhecesse

o teu ânimo e a tua raça, eu teria fugido com igual medo.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.12

O cervo junto à fonte

Esta narração é testemunha de que, muitas vezes, se revelam

mais úteis as coisas que desprezas do que as louvadas.

Um cervo, quando bebia junto à fonte, parou

e viu na água a sua imagem.

Aí, enquanto louvava admirando seus ramosos chifres 5

e criticava a demasiada finura de suas pernas,

aterrado subitamente pelas vozes dos caçadores,

pôs-se a fugir pelo campo e com sua corrida ligeira

enganou os cães. Então o bosque abrigou o animal

e nele, impedido pelos chifres retidos 10

começou a ser dilacerado pelas cruéis mordidas dos cães.

Diz-se que então, enquanto morria, emitiu esta voz:

“Ó desgraçado de mim! que só agora entendo

quão útil foi para mim o que eu tinha desprezado

e o que eu tinha louvado quanto sofrimento me trouxe.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.