Fedro 1.13

A raposa e o corvo

Quem se alegra em ser louvado com palavras enganosas

normalmente paga a pena com vergonhosa penitência.

Como um corvo, pousado no alto de uma árvore,

quisesse comer um queijo, roubado de uma janela,

uma raposa o viu e em seguida começou a falar assim: 5

“Ó que brilho é o de tuas penas, corvo!

Que grande formosura trazes no corpo e no rosto!

Se tivesses voz, nenhuma ave seria superior a ti.”

E de tolo aquele, querendo ostentar a voz,

deixou cair da boca o queijo, que rapidamente 10

a dolosa raposa arrebatou com seus ávidos dentes.

Só então é que a iludida estupidez do corvo gemeu.

{Com este fato é provado o quanto vale o talento;

A sabedoria sempre prevalece sobre a coragem.}

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.14

De sapateiro a médico

Um mau sapateiro, perdido na miséria,

após começar a exercer medicina em lugar desconhecido

e vender um antídoto com um falso nome,

adquiriu fama com seus verborrágicos rodeios.

Como jazesse abatido por uma grave doença, 5

o rei da cidade, para experimentá-lo,

pediu um copo; em seguida, verteu água no copo

fingindo misturar ao antídoto um veneno

e mandou-o beber, depois de prometer uma recompensa.

Ante o temor da morte, ele então confessou 10

que se tornara médico famoso não pelo domínio da ciência,

mas graças à estupidez do povo.

Após convocar uma assembleia, o rei acrescentou o seguinte:

“De quão grande loucura julgais estar vós,

que não hesitais em confiar vossas cabeças 15

a quem ninguém confiou os pés para calçá-los?”

Eu diria realmente que isto diz respeito àqueles

cuja estupidez é o lucro da falta de vergonha.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.15

O burro para o velho pastor

Na mudança de governo, frequentemente

os pobres nada mudam, exceto os costumes de seu senhor.

Que isso é verdade esta pequena fabulazinha mostra.

Um velho medroso apascentava seu burro no prado.

Aterrorizado pelo repentino clamor dos inimigos, ele 5

aconselhava ao burro que fugisse, para que não pudessem ser capturados.

Mas aquele, tranquilo: “Pergunto: acaso julgas

que o vencedor me porá duas cargas?”

O velho disse que não. “Então que diferença faz para mim

a quem eu sirva, se carrego a minha carga?” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.16

A ovelha, o cervo e o lobo

Quando um trapaceiro chama homens ímprobos como fiadores,

pretende não resolver o negócio, mas causar o mal.

Um cervo pedia a uma ovelha um módio de trigo,

sendo o lobo o fiador. Mas ela, temendo previamente o engano:

“O lobo sempre teve o costume de roubar e ir embora, 5

tu, o de fugir da vista com ímpeto veloz;

onde vos procurarei quando chegar o dia?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.17

A ovelha, o cão e o lobo

Os mentirosos costumam sofrer o castigo por seus malefícios.

Como um cão caluniador reclamasse a uma ovelha

um pão que afirmava ter-lhe confiado,

o lobo, citado como testemunha, disse que

não era devido um só; mas afirmou serem dez. 5

A ovelha, condenada pelo falso testemunho,

pagou o que não devia. Poucos dias depois

a ovelha viu o lobo jazendo numa armadilha:

“Esta”, diz, “é a recompensa dada pelos deuses para as trapaças.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.18

A mulher prestes a dar à luz

Ninguém retorna de bom grado ao local que o prejudicou.

No instante do parto, uma mulher, completados os meses,

estava deitada no chão, soltando dolorosos gemidos.

O marido exortou-a a estender seu corpo na cama,

onde melhor liberaria o ônus da natureza. 5

“De modo algum”, diz, “eu confio poder

terminar o mal no lugar em que seu início foi concebido.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.19

A cadela prestes a dar cria

As lisonjas de um homem mau têm armadilhas:

os versos que seguem advertem para que as evitemos.

Como uma cadela prestes parir pedisse a uma outra

para ter a cria em seu abrigo, facilmente

obteve a permissão; depois, à outra, que pedia de volta o lugar, 5

dirigiu súplicas, pedindo mais um tempinho,

até que ela pudesse levar seus filhotes mais fortalecidos.

Esgotado também este tempo, a outra começou a exigir com firmeza

o seu cubículo.“Se para mim e minha turma

puderes ser páreo”, diz a cadela, “eu cederei o lugar.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.20

Os cães famintos

Um plano tolo não só não tem efeito

mas também arrasta os mortais para a desgraça.

Uns cães viram um couro no fundo de um rio.

Para que pudessem tirá-lo mais facilmente e comê-lo,

começaram a beber toda a água: mas morreram arrebentados 5

antes de atingirem o que buscavam.  

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.21

O velho leão, o javali, o touro e o burro

Todo aquele que perdeu sua antiga dignidade,

é, em sua grave queda, objeto de galhofa até mesmo para os covardes.

Como um leão, enfraquecido pelos anos e privado de suas forças,

jazesse, exalando seu último suspiro,

um javali veio até ele com seus dentes fulminantes 5

e, com um golpe, se vingou de uma antiga ofensa.

Mais tarde um touro perfurou com seus chifres hostis

o corpo do inimigo. Um burro, quando viu a fera

sendo ferida impunemente, quebrou-lhe a fronte com coices.

E ele, morrendo: “Suportei que os fortes indignamente 10

me insultassem; a ti, desonra da natureza,

visto ser eu obrigado a suportar-te, pareço morrer duas vezes.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.22

A doninha e o homem

Uma doninha, apanhada por um homem, querendo escapar

da morte iminente, diz: “Por favor, me poupa,

pois sou eu que te limpo a casa dos nocivos ratos.”

Respondeu aquele: “Se fizesses isso por minha causa,

seria digno de gratidão e eu te daria o perdão que suplicas. 5

Agora, visto que trabalhas para desfrutares dos restos

que os ratos vão roer e, ao mesmo tempo, devorares os próprios ratos,

não queiras me convencer a aceitar um favor inexistente.”

E, tendo assim falado, matou a malvada.

Devem reconhecer que isto foi dito para si aqueles 10

cuja utilidade particular serve a eles próprios

e se gabam perante os incautos um vão merecimento.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.