Esopo 22

O ateniense devedor

Em Atenas, um devedor, ao ter sua dívida cobrada pelo credor, primeiro pôs-se a pedir-lhe um adiamento, alegando estar em dificuldade. Como não o convenceu, trouxe uma porca, a única que possuía, e, na presença dele, colocou-a à venda. Então chegou um comprador e quis saber se a porca era parideira. Ele afirmou que ela não apenas paria, mas que ainda o fazia de modo extraordinário: para as festas da deusa Deméter, paria fêmeas e, para as de Atena, machos. E, como o comprador estivesse assombrado com a resposta, o credor disse: “Mas não se espante, pois nas festas do deus Dionísio ela também vai lhe parir cabritos”.

A fábula mostra que muitos, interessados no próprio lucro, não hesitam nem mesmo em dar falso testemunho de absurdos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 59

Esopo 23

O avarento

Um avarento vendeu todos os seus bens e transformou-os numa barra de ouro. Em seguida, enterrou-a diante do muro e depois passou a ir lá constantemente examiná-la. Mas um servo seu que se encontrava nos arredores ficou atento às suas idas e vindas e, ao atinar com o que se passava, aproveitou o momento em que o patrão estava distante para desenterrar a barra e roubá-la. E o avarento, quando retornou e encontrou o buraco vazio, começou a chorar e a arrancar os cabelos. Então uma pessoa que o viu, ao saber do motivo daquele sofrimento exagerado, disse: “Não se desespere assim, companheiro! Trate de pegar uma pedra, depositá-la no mesmo lugar do ouro e fazer de conta que é seu tesouro! Ela terá, para você, a mesma serventia. Pois, quando havia o ouro, você não tirava dele nenhum proveito!”.

A fábula mostra que de nada vale a riqueza se a utilidade não a acompanha.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 60

Esopo 24

O bandido e a amoreira

Um bandido matou um homem numa estrada e, ao ver-se perseguido pelas pessoas que ali estavam, abandonou-o e fugiu, manchado de sangue. Nisso, uns viandantes que vinham em sentido contrário lhe perguntaram com o que ele tinha manchado as mãos. Ele respondeu que tinha acabado de descer de uma amoreira. Enquanto dizia isso, seus perseguidores o alcançaram e, depois de agarrá-lo, penduraram-no numa amoreira. Esta, então, lhe disse: “Mas eu não me importo em colaborar com sua morte, pois você cometeu um crime e depois tentou limpar as mãos em mim”.

Assim, muitas vezes também os honestos por natureza, quando alguns os confundem com os vis, não hesitam em agir com perversidade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 63

Esopo 25

Os Bens e os Males

[A fábula mostra] Que com os bens não é fácil deparar-se, mas pelos males cada pessoa é a cada passo atingida.

Os Bens, por serem frágeis, foram perseguidos pelos Males e subiram ao céu. Lá, perguntaram a Zeus como é que deviam se comportar entre os homens. Zeus, então, disse-lhes que não ficassem todos juntos no meio deles, mas que se acercassem deles um por vez. É por isso que os Males se aproximam dos homens continuamente, pois vivem perto deles. Os Bens, ao contrário, o fazem mais espaçadamente, pois descem do céu.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 64

Esopo 26

A bezerra e o boi

Ao ver um boi trabalhando, uma bezerra pôs-se a lamentar a fadiga que ele experimentava. Mas, quando chegou o dia de uma festa religiosa, liberaram o boi e dominaram a bezerra para ser degolada. Ao ver isso, o boi sorriu e lhe disse: “É por isso que você não trabalhava, bezerra, pois seu futuro era ser imolada muito cedo!”.

A fábula mostra que o perigo ronda o desocupado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 65

Esopo 27

O bezerrinho e a corça

A fábula mostra que nenhum elogio fortalece as pessoas de natureza covarde, mesmo que exibam um corpo robusto e de grande porte.

Certa vez um bezerrinho disse à corça: “Você, de tamanho, é superior aos cães e leva vantagem sobre eles em velocidade; e também tem chifres para defender-se. Por que então tem tanto medo dos cães?”. Ela respondeu: “Sei, sim, que tenho tudo isso, mas, se ouço um latido, meu juízo se turva e eu só penso em fugir!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 66

Esopo 28

O bigato e a serpente

[Havia uma figueira à beira do caminho.] Um bigato avistou uma serpente dormindo e ficou com inveja de seu tamanho. No desejo de igualar-se a ela, ele se colocou a seu lado e foi tentando esticar-se até que, sem se dar conta, passou dos limites e arrebentou-se.

Isso é o que acontece com os que se indispõem contra os superiores. Eles próprios se arrebentam muito antes de conseguir atingi-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 67

Esopo 29

O bode e a videira

Enquanto um bode comia os brotos no renovo da videira, esta lhe disse: “Por que você me danifica? Será que não há mais relva? Mesmo assim, fornecerei todo o vinho de que precisarem quando você for imolado”.

Os ingratos e os que querem passar a perna nos amigos, a fábula denuncia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 70

Esopo 30

Os bois e o eixo

Enquanto os bois puxavam a carroça, o eixo rangia. Então eles se voltaram e lhe disseram: “Ei, meu caro, nós carregamos todo o peso e você é que fica resmungando?”.

Assim, também certos homens, enquanto outros fazem força, fingem que são eles que estão se esfalfando.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 71

Esopo 31

Os bois e o leão

Três bois viviam a pastar sempre juntos. Mas um leão que desejava comê-los e não conseguia, porque eles viviam em concórdia, indispôs um contra o outro por meio de falsos discursos e separou-os. E, assim, como os encontrou isolados, devorou um por um.

Se você deseja muito viver livre de dos inimigos; nos perigos, desconfie amigos, porém, tenha confiança, e preserve-os.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 72