Esopo 42

O burro em pele de leão

[A fábula mostra] Que você, que é pobre e gente comum, não deve imitar o comportamento dos ricos, para não ser alvo de caçoadas nem correr riscos.

Envolto numa pele de leão, um burro fazia todo mundo pensar que ele era um leão e, assim, punha em fuga homens e rebanhos. Mas, logo que soprou uma rajada de vento, a pele se despegou e o burro ficou nu. Aí, então, todos acorreram e o surraram com varas e porretes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 84

Esopo 43

O burro que vestiu uma pele de leão

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”.

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 85

Esopo 44

O burro que carregava sal

Um burro carregado de sal atravessava um rio quando escorregou e caiu na água. E, como o sal se dissolveu, ele se levantou mais leve e saiu todo contente. Tempos depois, estava com uma carga de esponjas quando chegou à beira de um rio e, supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito. Aconteceu, porém, que as esponjas absorveram a água e ele, sem poder levantar-se, afogou-se ali mesmo.

Assim, também, certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 88

Esopo 45

O burro que carregava uma estátua

Um homem colocou uma estátua sobre um burro e o tocou para a cidade. As pessoas que deparavam com ele faziam reverências à estátua, mas o burro, crente de que eram para ele as reverências, pôs-se a zurrar, todo empolgado, e não quis mais seguir adiante. Quando o burriqueiro atinou com o que estava acontecendo, começou a surrá-lo com o porrete, dizendo: “Ô, cabeça oca, só me faltava essa! Um burro ser reverenciado por homens!”.

A fábula mostra que as pessoas que se engradecem com bens alheios se expõem ao deboche da parte daqueles que as conhecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 89

Esopo 46

O burro que comia paliúro e a raposa

Um burro comia as folhas ásperas de paliúro; notou-o uma raposa, que lhe disse, injuriosa: “Com uma língua tão macia e assim sem pele, como você tritura e engole esse alimento rijo?”.

A fábula [convém] aos que usam a língua para proferir palavras duras e perigosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 90

Esopo 47

O burro que felicitava o cavalo

[A fábula mostra] Que não devemos invejar os ricos e os que estão no poder, mas, levando em conta que eles são alvo de inveja e de ameaças, devemos estimar a pobreza, mãe da tranquilidade.

Um burro se pôs a felicitar o cavalo, por este receber alimento e cuidados especiais, e a deplorar a si mesmo e a sua sorte, dizendo que carregava fardos pesados e recebia pouca comida, ao passo que o cavalo, adornado de rédeas e testeiras, realizava percursos leves. Ia o burro tecendo tais considerações, quando sobreveio o tempo da guerra. Foi então que o general montou com suas armas no cavalo e o tocou para o campo dos inimigos. E o cavalo, ferido por golpes de espadas, acabou jazendo agonizante. Então o burro mudou de opinião e teve pena do cavalo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 91

Esopo 48

O burro selvagem e o burro doméstico

Ao ver um burro doméstico num local bem ensolarado, um burro selvagem chegou perto e se pôs a felicitá-lo por ter um corpo vigoroso e alimento à disposição. Mais tarde, porém, ao vê-lo carregando fardos e o burriqueiro atrás dele a dar-lhe chicotadas, disse: “Eu não o felicito mais. Pois vejo que você tem fartura ao preço de grandes males!”.

Assim, não são invejáveis as vantagens alcançadas com perigos e sofrimentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 92

Esopo 49

O burro, a raposa e o leão

Um burro e uma raposa se tornaram sócios e saíram para caçar. Mas, quando toparam com um leão, a raposa, ao ver o perigo iminente, se aproximou dele e propôs entregar-lhe o burro caso ele prometesse poupá-la. Como o leão disse que iria libertá-la, a raposa induziu o burro a cair numa armadilha preparada por ela. E o leão, ao ver que o burro não podia escapar, agarrou primeiro a raposa e, em seguida, foi para cima do burro.

Assim, os que conspiram contra os sócios sem perceber também perecem muitas vezes junto com eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 93

Esopo 50

O burro, o corvo e o lobo

Um burro com uma ferida no lombo pastava num prado, quando um corvo pousou sobre ele e ficou dando bicadas na ferida. Enquanto o burro zurrava e saltava de dor, o burriqueiro, parado a uma certa distância, dava risada. Nisso, passava por ali um lobo, que, ao ver a cena, disse para si: “Pobres de nós! Se dermos uma única espiada, somos perseguidos, ao passo que o corvo ganha sorrisos”.

A fábula mostra conhecidos mesmo que os homens malfeitores são à distância.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 94

Esopo 51

O burro, o galo e o leão

Um burro e um galo estavam num estábulo, quando um leão faminto avistou o burro e viu que, se entrasse lá, poderia devorá-lo. Mas, ao ouvir o som do galo cacarejando, retraiu-se de medo – pois dizem que os leões se arrepiam com a voz dos galos –, fez meia-volta e se pôs a fugir. E o burro, todo animado a enfrentá-lo – uma vez que ele sentia medo de um galo! –, saiu do estábulo para ir em seu encalço. E, quando o burro já estava bem longe dali, o leão o devorou.

Assim, também, alguns homens, ao ver que seus inimigos estão sendo humilhados, crescem em ousadia e, sem se dar conta, são destruídos por eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 96