Esopo 62

O caçador e o lobo

Ao ver um lobo atacando o rebanho e dilacerando o maior número de ovelhas que podia, um caçador o apanha por meio de um bom ardil, atiça os cães contra ele e, em seguida, lhe vocifera: “Ô, bicho ordinário, cadê sua força de antes? Você não está sendo capaz de nem mesmo enfrentar os cães!”.

Essa fábula mostra que todo ser humano alcança renome graças à habilidade que lhe é peculiar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 115

Esopo 63

A cadela que carregava carne

Uma cadela atravessava um rio levando um pedaço de carne, quando observou na água sua própria imagem. Crente de que era outra cadela com um pedaço de carne maior, largou o seu e avançou para tomar o da outra. Sucedeu, porém, que ela ficou sem os dois, sem o que ela não alcançou, porque não existia, e sem o seu, que foi rio abaixo.

Para homem ambicioso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 117

Esopo 64

As cadelas famintas

Cadelas famintas avistaram peles encharcadas num rio. Como não conseguiam alcançá-las, combinaram entre si que primeiramente sorveriam a água e, depois, chegariam até elas. Mas sucedeu que elas foram bebendo e estouraram antes de alcançar as peles.

Assim, alguns homens se entregam tarefas arriscadas, afoitamente a na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 118

Esopo 65

Os cães

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda. E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”.

Assim, também, as crianças preguiçosas não merecem censura, quando os pais as educam dessa maneira.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 119

Esopo 66

Os cães que estraçalhavam uma pele de leão

Uns cães encontraram uma pele de leão e puseram-se a fazê-la em pedaços. Ao vê-los, a raposa disse: “Se esse leão estivesse vivo, veriam que suas garras eram mais fortes do que os dentes de vocês”.

Essa fábula é clara para os que menosprezam as pessoas ilustres, quando elas despencam do poder e da glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 120

Esopo 67

O cão adormecido e o lobo

Um cão dormia diante de um estábulo quando um lobo o avistou e, depois de agarrá-lo, estava pronto para comê-lo, mas ele começou a implorar ao lobo que não o sacrificasse naquele momento. “Agora”, disse ele, “estou magro e mirrado. Mas meus donos estão para realizar uma festa de casamento e, se você me deixar livre agora, no futuro estarei mais gordo para você me devorar.” O lobo se convenceu e o soltou. Alguns dias depois ele voltou e encontrou o cão dormindo no alto da casa. Então ele parou e falou para o cão descer, lembrando-o do compromisso. O cão respondeu: “Mas se você, lobo, me vir dormindo de novo diante do estábulo, não mais aguarde casamento!”.

Assim, os homens sensatos, quando se safam de algum perigo, resguardam-se dele no futuro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 121

Esopo 68

O cão convidado para jantar

Um homem preparava um jantar para receber à mesa um amigo íntimo. E o cão dele chamou outro cão, dizendo: “Amigo, vem jantar aqui comigo”. Ele foi e, enquanto contemplava feliz o grande jantar, exclamava intimamente: “Uau!, que alegria inesperada me apareceu bem agora! Vou me banquetear à farta e comer tanto que amanhã não terei fome nenhuma!”. O cão dizia isso para si e, ao mesmo tempo, abanava o rabo, confiante no amigo. Mas o cozinheiro, quando viu aquele rabo se movimentando para lá e para cá, agarrou o cão pelas patas e, num átimo, o arremessou para fora, pela janela. Após o baque, ele foi embora, ganindo muito. Então um dos cães que toparam com ele no caminho perguntou: “Como foi o jantar, amigo?”. Ele respondeu: “Exagerei na bebida e fiquei tão bêbado que nem mesmo sei por onde foi que eu saí”.

A fábula mostra que não se deve baixar a guarda diante daqueles que prometem benefícios a expensas de bens alheios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 122

Esopo 69

O cão de caça

[A fábula mostra] Que não se deve, por amor ao luxo e à vanglória, atrair perigos para si, mas fugir deles.

Um cão criado em casa era adestrado para lutar contra animais ferozes. Mas, quando viu vários deles parados em fila, quebrou a coleira do pescoço e pôs-se a fugir pelas ruas. Então outros cães, vendo que ele era robusto como um touro, disseram: “Por que você está fugindo?”. Ele respondeu: “Sei que convivo com um exagero de comida e sacio meu corpo. Mas estou sempre a um passo da morte, quando luto contra ursos e leões”. Então eles comentaram entre si: “Vida boa é a nossa, ainda que pobre, pois não lutamos contra leões e nem contra ursos!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 123

Esopo 70

O cão e a lebre

Após apanhar uma lebre, um cão de caça ora lhe dava mordidas, ora lambia-lhe os lábios. Então ela, interrompendo-o, lhe disse: “Ou você para de me morder, ou para de me beijar, a fim de eu saber se sua conduta é de amigo ou de inimigo”.

Para homem ambíguo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 124

Esopo 71

O cão e o açougueiro

Um cão entrou num açougue e, enquanto o açougueiro estava ocupado, roubou um coração e escapuliu. O açougueiro se virou e disse, ao vê-lo fugir: “Mas fique você sabendo que, onde quer que esteja, irei vigiá-lo. Pois você não roubou de mim um coração; pelo contrário, agora eu tenho um, que você me deu!”.

A fábula mostra que, muitas vezes, os sofrimentos se tornam ensinamentos para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 125