Esopo 72

O cão e o caramujo

Um cão acostumado a engolir ovos, assim que viu um caramujo, escancarou a boca e o engoliu numa enorme bocada, crente de que fosse um ovo. Então, sentiu um peso nas entranhas e disse, gemendo: “É bem feito para mim, se tudo o que é redondo eu acho que é ovo”.

A fábula nos ensina que aqueles que se lançam irrefletidamente a uma tarefa mergulham, sem se dar conta, em situações inusitadas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 126

Esopo 73

O cão que perseguia um lobo

Enquanto afugentava um lobo, um cão fremia, orgulhoso, da rapidez de suas patas e de seu próprio vigor, achando que o lobo fugia devido a alguma fraqueza que lhe era peculiar. Foi então que o lobo se voltou e disse ao cão: “Não é de você que tenho medo, mas da investida de seu dono”.

Essa fábula mostra que não se deve enfunar-se com a nobreza dos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 127

Esopo 74

O cão que perseguia um leão

Um cão de caça viu um leão e se pôs a persegui-lo, mas o leão se voltou e deu um rugido. Amedrontado, o cão retrocedeu. Então uma raposa o viu e disse: “Ô, cabeça oca, você estava perseguindo um leão e não podia nem com o rugido dele?”.

A fábula poderia ser contada a propósito de homens arrogantes que se põem a denegrir os mais poderosos, mas, quando eles os enfrentam, imediatamente retrocedem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 128

Esopo 75

O cão que usava sinete

Um cão mordia traiçoeiramente. Então o dono pendurou nele um sinete, para que todos fossem advertidos. O cão, porém, se pavoneava na praça, agitando o sinete. Então uma cadela velha lhe disse: “Por que você se exibe? Não é por mérito que está carregando isso, mas como denúncia de sua maldade oculta”.

[A fábula mostra] Que as atitudes envaidecidas dos fanfarrões são mostras evidentes de perversidade oculta.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 129

Esopo 76

O cão, o galo e a raposa

Um cão e um galo se tornaram amigos quando seguiam juntos por uma estrada. Ao cair da noite, chegaram a um bosque e, enquanto o galo subiu numa árvore e pousou num galho, o cão adormeceu numa fenda ao pé da árvore. A noite passou e, ao nascer da aurora, o galo se pôs a soltar sua gritaria, como de costume. Então uma raposa o ouviu e, no desejo de abocanhá-lo, se aproximou e ficou parada sob a árvore, gritando para ele: “Você é uma ave boa e de utilidade para os homens. Desça, para cantarmos serenatas e nos alegrarmos juntos”. E ele disse, em resposta: “Amiga, vá aí embaixo, diante da raiz da árvore, e chame o vigia, para ele bater na porta”. E, quando a raposa foi chamá-lo, num átimo o cão saltou sobre ela, agarrou-a e fê-la em pedaços.

A fábula mostra que assim, também, os homens sensatos, quando lhes advém alguma desgraça, com facilidade se posicionam para lutar contra ela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 130

Esopo 78

A camela que defecou no rio

Uma camela defecou enquanto estava atravessando um rio de forte correnteza, e logo em seguida viu o excremento passar à sua frente, devido à rapidez da correnteza. Então ela disse: “O que é isso? Já estou vendo deslizar à minha frente o que estava atrás de mim!”.

A fábula cai bem para uma cidade onde os ínfimos e os imbecis dominam em lugar dos primordiais e dos sensatos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 132

Esopo 79

A camela que desejava ter chifres

Ao ver um touro orgulhoso de seus chifres, uma camela ficou com inveja e também desejou conseguir uns iguais. Por isso, foi a Zeus pedir que lhe concedesse chifres. Irritado com ela, que, não satisfeita com o tamanho de seu corpo e sua força, ainda ambicionava qualidades adicionais, Zeus não só não lhe acrescentou os chifres como ainda lhe retirou um pedaço das orelhas.

Assim, muitas pessoas cúpidas que olham com inveja os bens alheios não notam que perdem até o que possuem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 133

Esopo 80

A camela vista pela primeira vez

Quando uma camela foi vista pela primeira vez, os homens, atemorizados e estarrecidos com o tamanho dela, puseram-se em fuga. Mas, com o passar do tempo, notaram sua mansidão e se tranquilizaram a ponto de chegar perto dela. E, como aos poucos foram percebendo que esse animal não era raivoso, chegaram a tal ponto de desconsideração que até um cabresto puseram nele e o entregaram aos garotos para conduzi-lo.

A fábula mostra que o costume suaviza bastante as situações aterradoras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 134

Esopo 81

O camelo, o elefante e o macaco

Estavam os animais irracionais decidindo a eleição de um rei, quando se apresentaram como candidatos um camelo e um elefante, esperançosos de serem os preferidos entre todos, por causa da força e da estatura de seus corpos. Todavia, um macaco disse que ambos eram inadequados: o camelo, porque não se irritava com os injustos, e o elefante, porque temia que um leitão, do qual ele tem pavor, viesse atacá-los.

A fábula mostra que até os empreendimentos muito importantes frequentemente se embaraçam, por causa de um pequeno detalhe.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 135