Esopo 82

Os caramujos

O filho de um lavrador estava assando caramujos e, ao ouvi-los crepitar, disse: “Ô, bichos horrendos, suas casas estão pegando fogo e vocês ficam cantando!”.

A fábula mostra que tudo o que é feito em hora inoportuna é digno de censura.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 136

Esopo 83

O caranguejo e sua mãe

A mãe do caranguejo estava lhe dizendo para não caminhar de lado nem esfregar as costas na rocha úmida. Então ele replicou: “Mãe, você, que está tentando me ensinar, trate de caminhar direito, que eu vou vendo e imitando!”.

Que convém àqueles [A fábula mostra] que criticam viver e andar direito, e só então dar lições de comportamento.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 138

Esopo 84

O caranguejo e a raposa

Um caranguejo saiu do mar e subiu até a praia, onde passou a viver sozinho. Uma raposa faminta, assim que o viu, foi correndo agarrá-lo, pois precisava alimentar-se. E, prestes a ser engolido, ele disse: “Mas é bem feito para mim, pois eu era um animal marinho e quis tornar-me um terrestre”.

Assim, também, os homens que abandonam as ocupações pessoais para empreender as que não lhes dizem respeito afligem-se com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 139

Esopo 85

Os carpinteiros e o pinheiro

Uns carpinteiros tentavam rachar um pinheiro e passaram a fazê-lo sem dificuldade depois de fabricar com ele algumas cunhas. Disse, então, a árvore: “Não recrimino tanto o machado que me corta, como estas cunhas nascidas de mim”.

[A fábula mostra] Que uma pessoa sofrer algum desaforo da parte de estranhos não é tão terrível quanto sofrê-lo da parte dos familiares.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 140

Esopo 86

O carreiro e Héracles

Um carreiro guiava a carroça para a aldeia, quando ela despencou num barranco fundo. Ele, em vez de acudir, ficou parado, inerte, pondo-se a rezar a Héracles somente, dos deuses todos o que ele mais honrava. Vem o deus, então, e lhe diz: Ajeite as rodas, aguilhoe os bois e reze, sim, aos deuses, mas se você não ajudar, é reza à toa!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 141

Esopo 87

O carro de Hermes e os árabes

Hermes, certa vez, percorria a terra inteira, conduzindo um carro lotado de mentiras, trapaças e fraudes, e em cada região ia distribuindo uma pequena porção da carga. Mas, quando chegou à terra dos árabes, dizem que o carro quebrou de repente e que eles furtaram a mercadoria como se fosse uma carga valiosa, impedindo o deus, assim, de seguir viagem para as terras de outros povos.

[A fábula mostra] Que os árabes superam a todas as raças em mentiras e fraudes, pois a verdade não existe na língua deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 142

Esopo 88

O carvalho e o cálamo

Um carvalho e um cálamo disputavam para ver quem tinha mais força. Quando soprou um vento violento, o cálamo se dobrou, curvando-se às rajadas, e escapou ileso. Já o carvalho, que tentou resistir aos ventos, foi arrancado pela raiz.

A fábula mostra que não se deve competir com os mais fortes nem enfrentá-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 143

Esopo 89

Os carvalhos e Zeus

Os carvalhos se queixavam a Zeus, dizendo: “Foi à toa que viemos ao mundo, pois, mais que todas as plantas, suportamos o abate violento!”. E Zeus: “Pois são vocês mesmos os responsáveis por se acharem em tal desventura. Se não fornecessem os cabos de machados e não tivessem utilidade para marceneiros e camponeses, nenhum machado iria abatê-los!”.

Certas pessoas que são responsáveis pelos próprios males, recriminam tolamente a divindade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 144

Esopo 90

O carvoeiro e o tintureiro

Um carvoeiro, ao ver um tintureiro estabelecer moradia perto da casa onde ele exercia sua profissão, foi lá propor-lhe que morassem juntos, explicando que se tornariam mais íntimos e, administrando um único estabelecimento, viveriam com mais lucros. O tintureiro lhe respondeu: “Mas para mim isso é completamente impossível! Pois o que eu alvejar você vai sujar de fuligem!”.

A fábula mostra que o diferente é insociável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 145

Esopo 91

O castor

O castor é um animal quadrúpede que vive em lagos. Dizem que suas vergonhas são usadas para certas curas. Portanto, se uma pessoa o vê e o persegue, ele, ciente do atrativo pelo qual está sendo perseguido, foge o quanto pode, para preservar-se inteiro, tirando partido da rapidez de suas patas. Mas, quando se vê acuado, corta fora as próprias vergonhas e, desse modo, consegue ficar vivo.

Assim, também, dentre os homens são sensatos aqueles que, ao sofrer ameaças por causa de suas riquezas, abrem mão delas para não pôr em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 146