Esopo 122

Os escaravelhos

Numa ilhota, pastava um touro, de cujo esterco se alimentavam dois escaravelhos. Quando chegou o inverno, um deles disse ao outro que pretendia voar para o continente e lá passar o inverno; assim, o amigo ficaria sozinho e teria comida suficiente. Também disse que, se encontrasse um pasto fértil, viria trazer-lhe algumas porções. Então ele foi para o continente e lá foi ficando, alimentando-se da fartura de esterco fresquinho. Passado o inverno, voou de volta à ilha e o outro, ao vê-lo muito forte e robusto, recriminou-o por não lhe ter trazido nada, apesar das promessas. Ele respondeu: “Não censure a mim, mas à natureza do lugar, pois de lá era possível retirar comida, mas não era possível levar nada”.

Esta fábula poderia aqueles que cultivam serem convidados as amizades até casar bem com para um banquete, mas, depois disso, não têm nenhuma valia para os amigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 187

Esopo 123

A escrava feia e Afrodite

Um patrão era amante de uma escrava feia e malandra. Com as moedas de ouro que ganhava, ela se enfeitava de maneira magnífica e tentava competir com a patroa. E a todo momento oferecia sacrifícios a Afrodite, suplicando-lhe que fizesse dela uma mulher sedutora. Mas a deusa lhe apareceu em sonho e disse que não tinha gosto em torná-la bela. “Ao contrário”, continuou, “estou chateada e muito zangada com aquele homem que acha você bonita!”

[A fábula mostra] Que as pessoas que ficam ricas por meios ilícitos não devem ufanar-se, visto que, no que respeita à vergonha, elas são disformes e vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 188

Esopo 124

Esopo no estaleiro

Como não tivesse nada para fazer, o fabulista Esopo foi até um estaleiro. Os construtores de navios puseram-se a caçoar dele e a provocá-lo para um desafio. Então Esopo disse que, antigamente, havia caos e água e que Zeus, desejando pôr à mostra a porção de terra, sugeriu que ela tragasse o mar três vezes. Ela começou e, na primeira tragada, fez aparecer as montanhas; na segunda, pôs a descoberto também as planícies. “E, se ela resolver dar a terceira tragada de água, a profissão de vocês não terá mais serventia.”

A fábula mostra que aqueles que tentam fazer troça dos melhores, sem perceber granjeiam para si mesmos, da parte deles, chateações maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 189

Esopo 125

O estômago e os pés

O estômago e os pés estavam discutindo para ver quem era mais forte. Como os pés diziam a todo instante que eram tão superiores em vigor, a ponto de carregar até o próprio estômago, este respondeu: “Mas, meus caros, se eu aqui não lhes fornecer alimento, vocês não vão conseguir me carregar!”.

Assim, também, no que respeita aos exércitos, quase sempre de nada vale um grande contingente, se os generais não têm boas ideias.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 190

Esopo 126

O etíope

Uma pessoa comprou um etíope, achando que ele tinha aquela cor por desleixo do antigo dono. Depois, levou-o para casa e forneceu-lhe todos os tipos de saponáceos, na tentativa de branqueá-lo com banhos variados. Não conseguiu mudar-lhe a cor, mas fez que ele ficasse doente por causa do desgaste.

A fábula mostra que as qualidades naturais permanecem tais quais se manifestam na origem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 191

Esopo 127

O eunuco e o sacerdote

Um eunuco foi até um sacerdote e pediu-lhe encarecidamente que realizasse um sacrifício em seu favor, para ele gerar filhos. O sacerdote lhe disse: “Quando me concentro no sacrifício, eu peço por você para ter filhos, mas quando olho para a sua cara, nem homem você parece!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 192

Esopo 128

O ferreiro e o cão

Um cão, que matava o tempo na oficina de ferreiros, caía no sono enquanto eles trabalhavam. Mas quando eles se sentavam para comer o cão ficava desperto e ia todo alegre se encostar nos donos. Eles, então, lhe disseram: “Como é que você não acorda com o barulho dos malhos tão pesados, mas imediatamente desperta ao mais leve ruído de nossos molares?”.

Esta fábula mostra imediatamente que também os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem completamente apáticos em relação àquelas que não lhes agradam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 195

Esopo 129

A figueira e a oliveira

Assim que uma figueira perdeu as folhas na estação do inverno, uma oliveira, sua vizinha, começou a recriminar seu desnudamento, dizendo: “Eu, tanto no inverno como no verão, estou sempre adornada com minhas folhas, que são perenes. Mas você tem uma beleza passageira, que só dura um verão”. Enquanto ela se gabava, um raio caiu subitamente, por obra divina, e incinerou-a, mas não atingiu nem de raspão a figueira.

Assim, os que se gabam da sorte e da riqueza assumem a responsabilidade por desgraças em excesso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 196

Esopo 130

A formiga

A formiga de hoje era, antigamente, um ser humano que se dedicava à lavoura, mas que não se contentava com o que produzia e, sempre de olho na produção alheia, vivia surripiando a colheita dos vizinhos. Então, Zeus se irritou com sua ganância e o transformou nesse animal chamado formiga. Mas, mesmo lhe alterando a forma, não mudou seu comportamento, pois até hoje ele percorre as plantações, recolhe a cevada e o trigo dos outros e os armazena para si.

A fábula mostra que os perversos por natureza, ainda que recebam uma excelente punição, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 197

Esopo 131

A formiga e a pomba

Uma formiga sedenta desceu a uma fonte para beber, mas começou a afogar-se. Então, uma pomba, pousada numa árvore ao lado, arrancou um galhinho e lançou-o na água. A formiga subiu nele e salvou-se. Mais tarde, um caçador de passarinhos parou ali e, no desejo de apanhar a pomba, montou seus caniços com visgo. Então a formiga veio e deu uma mordida no pé do caçador. Ele se desequilibrou, sacudiu os caniços e, como resultado, a pomba fugiu e se salvou.

Também os pequenos gestos podem trazer grandes retornos aos benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 199