Esopo 132

A formiga e o escaravelho

Era verão e uma formiga percorria os campos colhendo grãos de trigo e de cevada, que armazenava como provisão para o inverno. Então um escaravelho ficou espantado ao ver que ela se excedia no trabalho, pois se estafava numa época em que os outros animais se desobrigavam de tarefas e ficavam na boa vida. Ela, nesse momento, nem se abalou. No entanto mais tarde, quando chegou o inverno e o esterco foi se desmanchando com a chuva, o escaravelho, faminto, foi atrás dela esmolar comida. Ela, então, lhe disse: “Mas se você, escaravelho, tivesse trabalhado naquela época, quando eu me estafava e você me criticava, agora não teria precisão de comida!”.

Assim, aqueles que em tempo de fartura não se preocupam com o futuro padecem graves sofrimentos quando a situação muda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 200

Esopo 133

O gaio e a raposa

Um gaio faminto pousou numa figueira. Como encontrasse ainda verdes os figos temporões, ficou lá esperando até que eles ficassem maduros. Então uma raposa viu que o gaio se eternizava ali e, ao saber do motivo, disse: “Mas você se engana, meu caro, entregando-se a uma esperança que sabe ludibriar, mas alimentar, jamais”.

Para homem mentiroso, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 203

Esopo 134

O gaio e as pombas

Ao ver pombas bem tratadas num pombal, um gaio se branqueou e foi participar do modo de viver delas. E, enquanto ficava em silêncio, as pombas o aceitavam, crentes de que ele era uma delas. Mas no exato momento em que o gaio se distraiu e soltou um grito, elas o enxotaram, pois estranharam a voz. E ele, sem ter conseguido alimentar-se, voltou novamente para junto dos gaios. Mas eles não o reconheceram por causa de sua cor e o barraram como companheiro de refeição. Desse modo, o gaio, que tinha dois interesses, não alcançou nenhum.

Pois é. Portanto, é nós nos contentemos com nossas posses, preciso que também considerando que a ambição, além de não servir para nada, muitas vezes também dissipa nossos bens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 204

Esopo 135

O gaio e os corvos

Um gaio que se distinguia dos demais pelo tamanho menosprezou os de sua raça e foi ter com os corvos, julgando que o certo era conviver com eles. Mas eles estranharam seu aspecto e sua voz e o enxotaram a bicadas. E ele, rejeitado, voltou para os gaios. Estes, porém, indignados com aquela insolência, não lhe deram acolhida. Assim, aconteceu que o gaio acabou excluído das duas comunidades.

Assim, também, os homens que abandonam a pátria para dar preferência a terras estrangeiras aí não gozam de estima, por serem estrangeiros, e são repudiados pelos compatriotas, por tê-los menosprezado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 205

Esopo 136

O gaio e os pássaros

Zeus, pretendendo instituir o rei dos pássaros, marcou uma data em que eles deveriam se apresentar como canditados. Então, um gaio, consciente de que não tinha chance devido à sua feiura, aproximou-se, recolheu as penas que caíam de outros pássaros e prendeu-as ao redor de seu corpo. Quando chegou o dia marcado, o gaio, multicolorido, foi também até Zeus. Mas na hora em que Zeus estava prestes a levantar a mão para designar rei o gaio por conta de seu esplêndido visual, os pássaros indignados o rodearam e cada um arrancou dele a pena que lhe pertencia. Então, aconteceu que ele, depenado, voltou a ser gaio.

Assim, também, os homens devedores, enquanto estão com a riqueza alheia, acham que são os tais, mas quando a devolvem mostram ser exatamente o que eram desde o início.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 206

Esopo 137

O gaio fugido

Uma pessoa apanhou um gaio e, depois de amarrar os pés dele com um cordão de linho, entregou-o ao filho. O gaio, porém, não suportava o modo de vida dos homens e, assim que teve um pouco de liberdade, fugiu de volta para o ninho. Mas o cordão se enroscou nos galhos e ele, sem conseguir voar, disse para si, ao morrer: “Pobre de mim! Por não aceitar a escravidão junto dos homens, privei-me, sem perceber, também da vida”.

A fábula cairia bem para aqueles homens que, no desejo de se defender de perigos banais, caíram, sem se dar conta, em desgraças muito maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 208

Esopo 138

A gaivota e o milhafre

Uma gaivota tentou engolir um peixe, mas sua garganta se rompeu e ela acabou jazendo morta numa praia. Então um milhafre a avistou e disse: “Bem feito para você, que nasceu alada, mas tentava levar a vida no mar!”.

Assim, aqueles que abandonam os costumes domésticos e se lançam a negócios que não lhes dizem respeito sofrem com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 209

Esopo 139

A galinha e a andorinha

Uma galinha encontrou ovos de serpente e, depois de chocá-los com cuidado, eles se abriram. Uma andorinha, ao avistá-la, disse: “Sua tola, para que criar esses animais que, depois de crescidos, vão praticar o mal, começando primeiramente por você?”.

Assim, a perversidade é indomável, ainda que receba muitíssimos benefícios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 210

Esopo 140

Os galos e a perdiz

Ao encontrar à venda uma perdiz domesticada, um homem que já tinha galos comprou-a e levou-a para casa, para criá-la junto com eles. Mas os galos davam bicadas e perseguiam a perdiz. Ela se sentia oprimida, achando que era rejeitada por ser de outra espécie. Passado algum tempo, ela notou que os galos se engalfinhavam e não se largavam antes de um deixar o outro coberto de sangue. Então ela disse para si: “Mas eu é que não mais me importo em levar bicadas, pois vejo que eles não respeitam nem a si mesmos”.

A fábula mostra que os prudentes suportam facilmente os excessos dos vizinhos, quando veem que eles não respeitam nem os próprios familiares.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 211

Esopo 141

Os galos e a águia

Dois galos brigavam por causa de galinhas, quando um pôs o outro para correr. Então, o vencido se afastou para um canto sombrio e lá ficou escondido. O vencedor, porém, voou alto e, pousado sobre um muro alto, deu um grito bem forte. Imediatamente desceu uma águia voando e o agarrou. E o galo que se escondera no escuro desde então se pôs a cobrir suas galinhas tranquilamente.

A fábula mostra que o Senhor se opõe aos soberbos e favorece os humildes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 214