Esopo 152

A gralha e o corvo

Uma gralha sentia inveja de um corvo porque ele, por meio de augúrios, fornecia presságios aos humanos e anunciava o futuro, e, por isso, eles o tomavam como testemunha. Então a gralha, no desejo de alcançar os mesmos privilégios, assim que avistou alguns viandantes se aproximando, plantou-se numa árvore e lá ficou grasnando bem alto. Impressionados com aquela voz, os viandantes se voltaram para elas, mas um deles tomou a palavra e disse: “Ora, amigos, vamos embora! É só uma gralha! E seus gritos não fornecem presságios!”.

Assim, também, os homens que competem com os mais fortes, além de não se igualarem a eles, ainda se expõem a chacota.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 229

Esopo 153

A Guerra e o Ultraje

Tendo sido sorteada uma esposa para cada um dos deuses, todos eles acabaram se casando. E para o Ultraje, o último contemplado, só sobrou a Guerra. Mas ele se apaixonou por ela e a desposou. É por isso que ele a acompanha aonde quer que ela vá.

[A fábula mostra] Que lá onde avança o Ultraje, seja numa cidade, seja entre povos, a Guerra e os Combates imediatamente o seguem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 230

Esopo 154

Héracles e Atena

Héracles seguia por um caminho estreito, quando viu no chão uma coisa parecida com maçã e tentou espatifá-la. Ao ver, no entanto, que ela dobrara de tamanho, começou a pisoteá-la mais ainda e a bater nela com a clava. Mas a coisa se estufou e, volumosa, bloqueou o caminho. Então, Héracles largou a clava e ficou parado, tomado de assombro. Nisso, a deusa Atena apareceu e disse: “Continue parado, meu irmão! Essa coisa aí é a discórdia e o amor da vitória. Se a deixarem em paz, ela permanece do jeito que era no início, mas, em meio a lutas, se avoluma assim”.

[A fábula mostra] Que está claro para todos que os combates e as discórdias são causas de grande dano.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 233

Esopo 155

Héracles e Pluto

Depois que se tornou uma divindade, Héracles foi acolhido à mesa junto de Zeus e lá foi saudando os deuses, um por um, com muita cordialidade. Mas de Pluto, que chegou por último, ele se esquivou, abaixando a cabeça. Zeus estranhou o fato e perguntou-lhe por que razão havia cumprimentado, com prazer, todos os deuses, mas olhara de soslaio para o deus da riqueza. Então ele disse: “Eu olho assim para ele porque, no tempo em que eu estava entre os homens, eu o via a maior parte das vezes frequentando os perversos”.

A fábula poderia ser contada a propósito de um homem abastado de sorte, mas perverso de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 234

Esopo 156

Hermes e a Terra

Quando Zeus plasmou o homem e a mulher, ordenou a Hermes que os conduzisse à Terra e lhes indicasse onde deveriam cavar para fazer uma toca. Hermes cumpriu a determinação, mas a Terra, no começo, criou resistência. E, como Hermes a intimidasse, dizendo que era determinação de Zeus, ela disse: “Mas eles que escavem quanto quiserem, pois vão me pagar com gemidos e lágrimas”.

Para aqueles que têm facilidade para tomar emprestado mas têm dificuldade para devolver, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 235

Esopo 157

Hermes e o escultor

Pretendendo saber o quanto era honrado entre os homens, Hermes assumiu a forma humana e foi à oficina de um escultor. Ao ver a estátua de Zeus, perguntou: “Quanto custa?”. O escultor respondeu que custava uma dracma. Hermes riu e perguntou: “E a estátua de Hera, quanto é?”. Ele disse que custava muito mais. Então, Hermes viu também sua própria estátua e presumiu que os homens o tivessem em alta conta, por ser ele o deus mensageiro e, também, propiciador de lucros. Por isso, fez mais esta pergunta: “E a de Hermes, quanto custa?”. O estatuário respondeu: “Se você comprar aquelas duas, esta eu lhe darei de brinde”.

Para homem presunçoso que não goza de nenhum prestígio junto dos demais, a fábula cai bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 236

Esopo 158

Hermes e os artesãos

Zeus determinou a Hermes que despejasse o veneno da mentira em todos os artesãos. Ele, então, após triturar o veneno, preparou uma medida igual para cada um e passou a despejá-lo. Mas, como só faltava o sapateiro e havia veneno de sobra, Hermes pegou toda a poção e despejou nele. O resultado disso é que todos os artesãos contam mentiras, mas os sapateiros superam todos eles.

Para homem mentiroso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 237

Esopo 159

Hermes e Tirésias

Desejando testar se a arte divinatória do cego Tirésias era verdadeira, Hermes roubou do campo seus bois, foi até a cidade e, após assumir a forma humana, se instalou como hóspede na casa dele. Ao receber a notícia do desaparecimento de sua parelha, Tirésias chamou Hermes e foi com o deus à periferia, para observar algum presságio a respeito do roubo, e em seguida pediu-lhe que, caso avistasse algum pássaro, lhe contasse qual era. Hermes viu, primeiro, uma águia voando da esquerda para a direita e comunicou o fato a Tirésias, mas este disse que aquilo não tinha nada a ver com eles. Numa segunda vez, Hermes notificou Tirésias de que tinha visto, pousada numa árvore, uma gralha que ora olhava para cima, ora abaixava a cabeça para o chão. Foi então que ele respondeu: “Mas esta gralha está justamente jurando pelo Céu e pela Terra que, se você quiser, eu vou recuperar meus bois!”.

Desta fábula uma pessoa poderia servir-se em relação a um homem ladrão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 238

Esopo 160

O herói

Um homem tinha em casa um herói, a quem oferecia dispendiosos sacrifícios. E, visto ele estar sempre gastando e desembolsando grandes somas em oferendas, o herói lhe apareceu à noite e disse: “Mas, meu caro, pare de consumir seus bens! Pois, se você gastar tudo e ficar pobre, é a mim que irá culpar!”.

Assim, muitos que sofrem por causa da própria irreflexão atribuem a culpa aos deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 239

Esopo 161

A hiena e a raposa

Dizem que as hienas de ano em ano trocam de sexo: se são machos num ano, no outro viram fêmeas. Assim, uma hiena viu uma raposa e começou a censurá-la, pois queria ser sua amiga, mas ela não aceitava. Então a raposa retrucou, dizendo: “Censure não a mim, mas à sua própria natureza, que não me deixa saber se você vai ser meu amigo ou minha amiga!”.

Para homem ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 241