Esopo 162

As hienas

Dizem que as hienas de ano em ano trocam de sexo, sendo machos num ano e fêmeas no outro. Certa vez, uma hiena macho se comportou, com uma hiena fêmea, de modo contrário à natureza. Então ela, tomando a palavra, disse: “Mas faça isso mesmo, meu caro, pois logo mais você vai se sujeitar ao mesmo tratamento!”.

Para magistrados que cobram satisfações de seus subalternos, mas, quando a situação se inverte, recebem deles a cobrança.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 242

Esopo 163

O homem cego

Um cego tinha o hábito de tatear qualquer animal que lhe fosse colocado nas mãos e, depois, dizer de que espécie ele era. Certa vez, quando lhe apresentaram um filhote de lobo, ele o apalpou e, meio indeciso, disse: “É um filhote, mas não sei se é de lobo ou de raposa ou de algum animal desse tipo. De uma coisa, porém, estou bem certo: este animal não é apropriado para acompanhar um rebanho de ovelhas”.

Assim, a índole dos perversos muitas vezes se faz notar até no corpo deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 243

Esopo 164

O homem contador de lorotas

Um atleta do pentatlo, que era constantemente tachado de fracote pelos cidadãos, certa vez se ausentou da cidade e, depois de algum tempo, retornou, vangloriando-se das muitas proezas que havia praticado em outros lugares. Contava que em Rodes dera um salto tão alto como nenhum vencedor da Olimpíada tinha conseguido dar, e afirmava que podia apresentar, como testemunhas de tal façanha, as pessoas que a presenciaram, quando elas viessem à cidade. Então um dos presentes retrucou-lhe: “Mas, se isso é mesmo verdade, você não precisa de testemunhas, meu caro. Faça de conta que Rodes é aqui e dê o salto!”.

A fábula mostra que é supérfluo todo discurso a respeito de uma ideia que se pode demonstrar com provas concretas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 244

Esopo 165

O homem covarde e os corvos

Estava um homem covarde saindo para a guerra, quando corvos começaram a crocitar. Ele, então, colocou as armas no chão e permaneceu quieto. Em seguida, pegou as armas e de novo ia partindo, quando eles tornaram a crocitar. O homem parou e, por fim, disse: “Vocês podem ficar gritando o mais alto que puderem, mas minha carne é que não vão saborear!”.

A fábula diz respeito aos covardes em demasia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 245

Esopo 166

O homem covarde que achou um leão de ouro

Um avarento covarde achou um leão de ouro e pôs-se a dizer: “Não sei como agir nesta situação. Estou aturdido e não sei o que fazer. Sinto-me dividido entre o amor ao dinheiro e a covardia inata. Quem teria feito um leão de ouro, algum acaso ou alguma divindade? Minha alma se digladia diante desta situação: ela ama o ouro, mas tem medo do artefato feito com o ouro. O desejo me impele a agarrá-lo e meu caráter, a afastar-me dele. Ó acaso que concede e que impede de aceitar! Ó tesouro que não dá prazer! Ó graça divina que se converte em desgraça! O que fazer? Como servir-me dele? A que expediente devo recorrer? Pois bem, vou embora e voltarei aqui trazendo todos os meus servos e, com a colaboração de tanta gente, vou pegá-lo. Só que eu mesmo ficarei assistindo de longe!”.

A fábula se aplica a uma pessoa rica que não tem coragem de tocar em seus bens e usufruir deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 246

Esopo 167

O homem e a raposa

Um homem tinha raiva de uma raposa porque ela lhe causava danos. Certa vez, ele a dominou e, querendo se vingar de uma vez por todas, pôs fogo num chumaço de estopa umedecido com óleo e amarrou-o na ponta do rabo da raposa. Mas um deus encaminhou-a para a plantação desse homem que a expulsara. Era o tempo propício para a colheita, e ele, por sua vez, foi atrás dela gemendo, porque nada iria colher.

[A fábula mostra] Que é preciso ser indulgente e não se irritar além da medida, pois muitas vezes da cólera nasce o dano para os irascíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 247

Esopo 168

O homem e o leão que seguiam juntos por um caminho

[A fábula mostra] Que muitos homens que em palavras alardeiam coragem e ousadia, a esses a experiência desmascara e denuncia.

Certa vez, um leão caminhava em companhia de um homem. E cada um, por sua vez, ia alardeando suas façanhas. No caminho, porém, havia uma estela de pedra com a representação de um homem esganando um leão. “Está vendo como somos superiores a vocês?”, disse o homem ao leão, apontando-a. E o leão, disfarçando um sorriso, retrucou: “Se leões soubessem esculpir, você veria muitos homens sob as patas de leões”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 248

Esopo 169

O homem e o sátiro

Dizem que, certa vez, um homem firmou um pacto de amizade com um sátiro. Quando chegou o inverno e começou a fazer frio, o homem levava as mãos à boca e as bafejava. O sátiro lhe perguntou por que agia daquele modo e ele respondeu que estava aquecendo as mãos, pois estavam geladas. Mais tarde foi-lhes servida a mesa e, como a refeição estivesse muito quente, o homem tomou uma pequena porção e, levando-a à boca, começou a soprá-la. E, quando o sátiro tornou a perguntar por que agia daquele modo, ele disse que estava esfriando a comida, pois estava quente demais. Então o sátiro lhe disse: “Eu abro mão de sua amizade, meu caro, pois dessa mesma boca você expele tanto o frio como o calor!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar a amizade das pessoas de comportamento ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 249

Esopo 170

O homem grisalho e as duas cortesãs

Um homem grisalho tinha duas amantes, uma nova e outra velha. A idosa, envergonhada de manter relações com um homem mais novo, vivia lhe arrancando os cabelos pretos cada vez que ele a visitava. E a mais nova, tentando suavizar o fato de ter como amante um velho, arrancava os seus fios grisalhos. Assim, aconteceu que, de fio em fio, ele foi depilado pelas duas e ficou careca.

Assim, em qualquer situação o anômalo é prejudicial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 251

Esopo 171

O homem malvado

Um homem malvado apostou com uma pessoa que iria lhe provar que o oráculo de Delfos era falso. No dia marcado, pegou um pardalzinho, encobriu-o com o manto e foi ao santuário. Em pé, diante do oráculo, perguntou-lhe se o que estava segurando nas mãos era uma coisa viva ou sem vida. Sua intenção era, caso ele dissesse “sem vida”, mostrar o pardalzinho vivo, e, caso dissesse “viva”, apresentá-lo morto, depois de asfixiá-lo. E o deus, ciente de sua intenção velhaca, respondeu: “Pare com isso, meu caro! Só depende de você se o que está trazendo é vivo ou morto!”.

A fábula mostra que a divindade é incontestável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 252