Esopo 192

O lavrador e a águia libertada

Um lavrador encontrou uma águia presa numa armadilha, mas se encantou com sua beleza e deixou-a ir em liberdade. A águia, então, não se mostrou ingrata e, quando o viu sentado ao pé de uma parede trincada, voou em sua direção e, com os pés, arrancou a faixa que ele tinha na cabeça. O lavrador se ergueu, começou a persegui-la e ela, então, deixou cair a fita. Ele a recolheu e, ao voltar para o local onde estivera sentado, encontrou a parede desmoronada. Assim, ele ficou admirado com a retribuição da águia.

[A fábula mostra] Que aqueles que recebem um benefício devem retribuí-lo, pois o bem que se faz terá retorno.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 287

Esopo 193

O lavrador e a cobra

Enquanto rastejava, uma cobra matou o filho de um lavrador. Profundamente angustiado com isso, o lavrador pegou um machado, foi para junto da toca da cobra e ficou vigiando a fim de golpeá-la, tão logo ela viesse para fora. Assim que a cobra apontou, ele deu uma machadada, que não acertou a cobra, mas fendeu um bloco de pedra que havia lá. E, depois, ele propôs, por via das dúvidas, que ambos fizessem as pazes. Então ela disse: “Mas nem eu consigo estar de bem com você quando vejo a pedra fendida, nem você comigo quando olha para o túmulo de seu filho”.

A fábula mostra que as grandes inimizades não têm fácil reconciliação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 288

Esopo 194

O lavrador e o Acaso

Um lavrador encontrou ouro na terra que cultivava e começou a oferecer coroas à Terra diariamente, como se ela é que fosse sua benfeitora. Veio, então, o Acaso e lhe disse: “Meu caro, por que você atribui à Terra as minhas dádivas, justo essas que eu lhe concedi por desejar que você ficasse rico? Se os tempos mudarem e esse ouro for gasto em outras necessidades, você não irá recriminar a Terra, e sim o Acaso!”.

A fábula nos ensina que precisamos reconhecer o benfeitor e demonstrar-lhe gratidão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 289

Esopo 195

O lavrador e o arbusto

[A fábula mostra] Que, por natureza, os homens não amam e honram tanto a justiça, como se animam a perseguir o lucro.

Nas terras de um lavrador havia um arbusto que não produzia frutos e só servia de abrigo a pardais e cigarras estridentes. Como não dava frutos, o lavrador ia cortá-lo. E, assim que pegou o machado e desferiu o golpe, as cigarras e os pardais puseram-se a suplicar-lhe que não abatesse o refúgio deles, mas que o deixasse, para que nele cantassem, proporcionando alegrias a você, lavrador! Mas este, sem a menor preocupação, desferiu um segundo golpe, e ainda um terceiro. Ao esburacar o arbusto, encontrou um enxame de abelhas e mel. E, depois de saboreá-lo, jogou fora o machado e honrou a planta como coisa sagrada, passando a cuidar dela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 290

Esopo 196

O lavrador e o lobo

Um lavrador desatrelou sua junta de bois e levou-a para beber água. Nisso, um lobo faminto, que estava à procura de comida, topou com o arado, começou a lamber o jugo dos bois e, aos poucos, sem se dar conta, acabou enfiando o pescoço nele. Em seguida tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e foi arrastando o arado pela plantação. E o lavrador, quando retornou, disse, ao vê-lo: “Ó, cabeça malvada, quem dera você abandonasse as pilhagens e os danos e pendesse para a lavoura!”.

Assim, os homens perversos, ainda que alardeiem ações utilíssimas, não merecem crédito devido a seu caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 291

Esopo 197

O lavrador e os cães

Um lavrador ficou detido no estábulo por causa de uma tempestade e, sem poder sair para arranjar alimento, comeu primeiro os cordeiros. E, como a tempestade ainda persistisse, num segundo momento devorou também as cabras. E, como não ocorresse nenhuma estiada, numa terceira vez avançou sobre os bois de arado também. Então os cães, que observavam os acontecimentos, disseram entre si: “Precisamos dar o fora daqui, pois se o patrão não se absteve nem mesmo dos bois, seus colaboradores, como é que vai nos poupar?”.

A fábula ensina que é preciso ter muita cautela com as pessoas que tratam injustamente seus conhecidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 292

Esopo 198

O lavrador e seus filhos

Um lavrador à beira da morte desejava que seus filhos adquirissem experiência na lavoura. Chamou-os, então, para junto de si e disse: “Meus filhos, numa de minhas vinhas há um tesouro”. Logo depois que o pai faleceu, eles pegaram os forcados e as charruas e revolveram toda a plantação. Tesouro, na verdade, não encontraram, mas a vinha lhes deu em recompensa múltiplas cargas de frutos.

A fábula mostra que o trabalho é um tesouro para os homens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 293

Esopo 199

O lavrador e seus filhos que viviam em discórdia

Um lavrador tinha filhos que viviam em discórdia e, apesar de seus muitos conselhos, não conseguia persuadi-los só com palavras a mudar de comportamento. Então concluiu que era preciso fazê-lo por meio de uma ação. Assim, propôs que eles trouxessem um fardo de lenha. Realizada essa tarefa, o lavrador lhes deu, primeiro, o fardo amarrado e ordenou que o quebrassem, mas eles não conseguiram quebrá-lo, apesar de todo o esforço que fizeram. Em seguida, ele desamarrou o fardo e foi lhes entregando um galho por vez, que eles iam quebrando sem dificuldade. E disse-lhes, depois: “Pois é. Assim, também vocês, meus filhos, se permanecerem amigos, serão invencíveis para os inimigos. Mas, se viverem em discórdia, serão presas fáceis”.

A fábula mostra que mais forte quanto a concórdia é tão facílima de vencer é a discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 294

Esopo 200

O leão doente, o lobo e a raposa

Um velho leão jazia doente estirado numa gruta. Todos os animais fizeram uma visita ao rei, menos a raposa. Foi então que o lobo aproveitou a chance de denunciá-la ao leão, dizendo que ela não tinha a menor consideração por aquele que exercia a autoridade sobre todos os animais e, por isso, não vinha visitá-lo. Mas, justo nesse momento, foi chegando a raposa, que ouviu as palavras finais do lobo. O leão, por conseguinte, começou a rugir para ela. A raposa, no entanto, pediu uma oportunidade de defesa e disse: “E, dentre esses que se reuniram aqui, quem foi que se preocupou com você tanto quanto eu, que andei por toda parte procurando saber dos médicos um tratamento para você e acabei encontrando?”. E, como o leão a mandasse dizer sem demora qual era o tratamento, ela falou: “É só esfolar um lobo vivo e envolver-se com a pele dele ainda quente”. E o lobo, imediatamente, jazeu morto. Então a raposa disse, a rir: “Assim, não se deve instigar o chefe à hostilidade, mas à benevolência!”.

A fábula mostra que aquele que maquina contra os outros reverte para si próprio a maquinação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 295

Esopo 201

O leão e a lebre

Um leão deparou com uma lebre a dormir, e estava prestes a devorá-la quando avistou uma corça passando por ali. Pôs-se, então, a persegui-la, deixando de lado a lebre, que despertou com o tropel e fugiu. E o leão, depois de muito correr atrás da corça, sem no entanto conseguir apanhá-la, voltou para atacar a lebre. Mas, ao ver que ela havia fugido, disse: “Mas é bem-feito para mim, pois abandonei o repasto que tinha em mãos para dar prioridade à expectativa de um melhor”.

Assim, alguns homens, não ganhos modestos, satisfeitos com vão atrás de expectativas melhores e, sem notar, desperdiçam os que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 296