Esopo 202

O leão e a rã

Ao ouvir o coaxar de uma rã, um leão se voltou para aquele barulho, crente de que se tratava de um animal de grande porte. Então, aguardou algum tempo e, quando a viu saindo do brejo, chegou perto e esmagou-a, dizendo: “Que o ouvir não abale ninguém antes do ver”.

Para homem de eloquência doentia, que só consegue tagarelar, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 297

Esopo 203

O leão e o burro que foram juntos à caça

Um leão e um burro se tornaram sócios e foram caçar. Ao chegarem a uma gruta onde havia cabras selvagens, o leão estacou na entrada para vigiar as que iam sair, enquanto o burro entrou e, lançando-se entre elas, começou a zurrar, pretendendo espantá-las para fora. E, depois que o leão havia apanhado quase todas, o burro saiu e quis saber do leão se ele havia lutado bravamente e afugentado direito as cabras. Então o leão respondeu: “Mas tenha certeza de que até eu teria ficado com medo, se não soubesse que você é um burro!”.

Assim, os que se vangloriam diante de quem os conhece expõem-se ao riso inevitavelmente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 298

Esopo 204

O leão e o golfinho

Enquanto zanzava por uma praia, um leão viu assomar fora da água a cabeça de um golfinho e, então, convidou-o para uma aliança de guerra, dizendo que era uma combinação perfeita eles serem amigos e aliados, pois, enquanto um era o rei dos animais marinhos, ele próprio reinava sobre os animais terrestres. De bom grado, o golfinho concordou. E o leão, que havia muito tempo estava em guerra contra um touro selvagem, chamou o golfinho em seu socorro. E como ele, mesmo querendo, não conseguia sair do mar, o leão o acusou de traidor. O golfinho, então, respondeu: “Não faça censuras a mim, mas à natureza, pois foi ela que, ao me fazer marinho, não me deixa andar em terra firme”.

Pois é. Portanto, também nós, que selamos pactos de amizade, devemos escolher como aliados aqueles que possam, nos perigos, estar junto de nós.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 299

Esopo 205

O leão e o javali

[A fábula mostra] Que é belo desfazer as querelas nocivas e as rivalidades, visto que elas acabam em danos para todo mundo.

No verão, quando o calor intensifica a sede, numa pequena fonte vieram beber um leão e um javali. Os dois começaram a discutir para ver quem beberia primeiro e, a partir da discussão, se animaram a travar um duelo mortal. De repente, porém, ao recuarem para tomar fôlego, viram abutres só esperando que um deles tombasse, para comê-lo. Por isso, puseram fim às hostilidades, dizendo: “É melhor nos tornarmos amigos do que banquete para abutres e corvos”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 301

Esopo 206

O leão e o onagro

Um leão e um onagro estavam caçando bichos, o leão recorrendo à sua força e o onagro, à rapidez de suas patas. Assim que caçaram alguns, o leão se pôs a fazer a partilha e separou três partes, dizendo: “A primeira eu vou pegar porque tenho prioridade, afinal, sou o rei. A segunda eu vou pegar porque sou seu sócio, com direitos iguais. E essa, a terceira, vai lhe causar um grande mal se você não quiser fugir”.

[A fábula mostra] que o bom é medir-se em tudo segundo a própria força, e não se juntar nem fazer sociedade com os mais poderosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 302

Esopo 207

O leão e o rato agradecido

Enquanto um leão dormia, um rato passeava pelo seu corpo. Nisso, ele despertou e o agarrou, e já ia devorá-lo, quando o rato começou a pedir que o soltasse, dizendo que, se o deixasse são e salvo, iria retribuir-lhe esse favor. O leão desandou a rir e soltou-o. Aconteceu, porém, que não demorou muito para ele ser salvo pela gratidão do rato. Tendo sido apanhado por caçadores, o leão foi amarrado com uma corda a uma árvore. Nesse instante o rato ouviu os gemidos dele, foi até lá e roeu a corda. E disse, após libertá-lo: “Certa vez você caçoou de mim porque não contava receber de minha parte uma recompensa. Agora, porém, esteja certo de que também entre os ratos há gratidão!”.

A fábula mostra que as situações mudam e os muito poderosos passam a precisar dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 303

Esopo 208

O leão e o touro

Um leão que tramava contra um touro enorme quis dominá-lo por meio de um ardil. Então, contou-lhe que havia imolado um cordeiro e convidou-o para a refeição, pretendendo dar cabo dele quando estivesse refestelado à mesa. O touro veio e, quando viu vários caldeirões e grandes espetos, mas nada de cordeiro, foi saindo calado. Foi então que o leão se pôs a repreendê-lo e a perguntar-lhe por que motivo ele, que não tinha sido maltratado, estava saindo em silêncio. E o touro respondeu: “Mas não é sem razão que estou fazendo isso! É que estou vendo utensílios preparados não para um cordeiro, mas para um touro”.

A fábula mostra que aos homens prudentes não passam despercebidos os artifícios dos malvados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 304

Esopo 209

O leão e o urso

Um leão e um urso encontraram um filhote de veado e puseram-se a brigar por causa dele. E se agrediram com tal violência que logo sentiram vertigens e caíram prostrados. Então uma raposa que estava chegando ali, ao vê-los inertes, agarrou o filhote, que jazia entre eles, e saiu por entre os dois. E eles, sem condições de levantar, disseram: “Como somos miseráveis! Estávamos nos matando em proveito de uma raposa!”.

A fábula mostra que sofrem com razão as pessoas que veem os frutos obtidos de seus próprios esforços serem levados pelo primeiro que aparece.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 305

Esopo 210

O leão enamorado

Um leão enamorou-se da filha de um lavrador e foi pedi-la em casamento. E o lavrador, que não suportava a ideia de entregar a filha a uma fera e, por medo, também não conseguia dizer não, fez o seguinte. Visto que o leão insistia em pressioná-lo, ele disse que o reputava um noivo digno de sua filha, mas não podia conceder-lhe sua mão, a menos que ele extraísse as presas e aparasse as garras, que amedrontavam a mocinha. O leão, por amor, sujeitou-se com facilidade a todas as exigências e o lavrador, já sem nenhum receio dele, escorraçou-o a porretadas quando ele veio à sua casa.

A fábula mostra que aqueles que se fiam mais nem menos no próximo sem aceitam abrir mão de seus privilégios específicos e, depois, se tornam presas fáceis daqueles que anteriormente os temiam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 306

Esopo 211

O leão furioso e o veado

Ao avistar, da floresta, um leão em acesso de fúria, um veado disse: “Aiaiai! Pobres de nós! O que não fará esse aí, enfurecido assim, se já era insuportável quando estava em pleno juízo?!”.

[A fábula aconselha] Que todos se mantenham afastados dos homens de ânimo alterado e acostumados a fazer o mal, quando eles ocupam o poder e se tornam chefes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 307