Esopo 212

O leão, o burro e a raposa

Um leão, um burro e uma raposa fizeram entre si uma sociedade e foram caçar. Assim que apanharam uma boa quantia de presas, o leão determinou que o burro lhes fizesse a partilha. Então ele fez três partes iguais e convidou-o para escolher uma. Enfurecido, o leão saltou sobre ele, devorou-o e, depois, determinou que a raposa fizesse a divisão. Ela ajuntou tudo num único monte, reservando para si uma pequena porção, e convidou o leão a fazer a escolha. E, quando o leão lhe perguntou quem é que a ensinara a repartir daquele modo, a raposa respondeu: “A desgraça do burro!”.

A fábula mostra que os infortúnios do próximo se tornam, para os homens, fonte de sabedoria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 308

Esopo 213

O leão, a raposa e a corça

Um leão, que jazia doente em uma caverna, disse à estimada raposa, com quem mantinha convívio: “Se você me quer vivo e saudável, ludibrie com palavras a maior corça que vive na floresta, faça com que ela venha às minhas mãos, pois ela tem um coração e entranhas que despertam o meu apetite”. A raposa se foi e, ao encontrar a corça a saltitar na floresta, saudou-a efusivamente e, em seguida, lhe disse: “Vim trazer boas novas! Você sabe que o leão, nosso rei, é meu vizinho. Ele está doente, moribundo, e se pôs a considerar sobre qual dos animais iria sucedê-lo. O javali é sem juízo”, afirmava ele, “o urso, balofo, a pantera, ranzinza, o tigre, fanfarrão. A corça é a mais digna da realeza, porque tem porte altivo, vida longa e um chifre que intimida as serpentes. Bom, mais delongas para quê? Por decisão dele, você assumirá o reinado! E eu, que recompensa vou ganhar por ter-lhe dado essa notícia em primeira mão? Vamos, prometa-me alguma coisa. Estou com pressa, não vá ele sentir a minha falta! Ele me tem como conselheira para tudo. Se você quer ouvir a mim, que sou velha, o meu conselho é que você venha também e aguarde junto do moribundo”. Assim disse a raposa. Com essas palavras, a corça ficou toda cheia de si e foi à caverna, ignorando o que ia acontecer. O leão, então, lançou impetuoso suas garras sobre ela, dilacerando-lhe somente as orelhas, pois a corça tratou de fugir rapidamente para a floresta. Enquanto a raposa dava murros porque havia feito esforços em vão, o leão gemia, entre fortes rugidos, pois a fome e o desgosto o dominavam. Então ele suplicou à raposa que fizesse uma segunda tentativa para trazer a corça novamente, por meio de um ardil. “A tarefa que você me atribui é difícil e penosa. Contudo, vou lhe dar esse apoio”, disse a raposa. Assim, como um cão farejador, saiu à procura da corça e foi tramando trapaças rumo à floresta, seguindo a indicação de uns pastores, a quem ela perguntou se tinham visto uma corça sangrando. A raposa a encontrou esbaforida e parou diante dela com a maior cara de pau. Indignada, a corça arrepiou o pelo e disse: “Nunca mais você me pega, sua peste! E se chegar perto de mim, não sairá viva! Vá raposinhar com outros, inexperientes, estimulando-os a se tornarem reis!”. A raposa rebateu: “Você é tão frágil e covarde assim, que desconfia de nós, seus amigos? O leão, quando agarrou sua orelha, ia dar conselhos e recomendações a respeito desse cargo tão importante, porque ele está morrendo! E você não tolerou nem mesmo um arranhão da pata de um enfermo! Agora a indignação dele é muito maior que a sua, e ele pretende tornar rei o lobo. Ai de mim, um senhor malvado! Mas venha, não se deixe sugestionar por nada, comporte-se como um cordeiro. Juro por todas as folhas e fontes que não sofrerá nenhum mal da parte do leão. Quanto a mim, quero apenas o seu bem”. Com tais ludíbrios, a raposa convenceu a medrosa a acompanhá-la uma segunda vez. E quando a corça adentrou a caverna, o leão agarrou a sua janta e se pôs a comer os ossos todos, o tutano e as entranhas. A raposa ficou parada, observando. Nisso cai o coração da corça e a raposa sorrateiramente o apanha e devora, como prêmio de seu empenho. E quando percebeu que o leão farejava todas as partes mas não achava o coração, ela, postada à distância, lhe disse: “A bem da verdade, essa fulana aí não tinha coração. Nem adianta procurar! Que espécie de coração teria ela, que veio ter por duas vezes à morada e às mãos de um leão?”.

[A fábula mostra] Que o amor pelas honrarias turva a mente humana e subestima as consequências dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 309-311

Esopo 214

O leão, Prometeu e o elefante

Um leão vivia se queixando com Prometeu porque este o havia feito grande e belo, havia munido sua mandíbula de dentes e fortalecido suas patas com garras; fizera-o, enfim, mais poderoso que os outros animais. “Mas eu, com tais regalias”, dizia ele, “tenho medo do galo!” E Prometeu respondeu: “Você não tem motivo para me culpar, pois recebeu de mim tudo o que eu pude fazer. E é só diante desse animal que seu ânimo esmorece!”. Mas o leão se deplorava, recriminando a própria covardia e, por fim, quis morrer. Estava com essas ideias na cabeça, quando encontrou por acaso um elefante. Este o cumprimentou e se deteve a conversar. Ao ver que ele abanava as orelhas o tempo todo, o leão disse: “O que há com você? Por que não sossega um pouco essa orelha?”. E o elefante, que justamente naquele momento estava com um mosquito voejando ao seu redor, respondeu-lhe: “Você está vendo esta coisa minúscula, este zumbidor? Se ele entrar no buraco do meu ouvido, estou morto!”. E o leão tornou: “Ora! Por que eu, que sou o tal, deveria morrer, se sou muito mais sortudo que o elefante, uma vez que o galo é bem mais que um mosquito?”.

Você está vendo a força que tem o mosquito, a ponto de amedrontar até um elefante!

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 312-313

Esopo 215

O leão que tinha medo do rato

Um rato corria pelo corpo de um leão adormecido. Então ele despertou e começou a contorcer-se em todas as direções, tentando encontrar quem o estava afrontando. Nisso, uma raposa o viu e começou a insultá-lo, pois ele, que era um leão, tinha medo de um rato. Ele respondeu: “Não fiquei com cisma do rato. Mas espantou-me que alguém tivesse o atrevimento de correr sobre o corpo de um leão adormecido!”.

A fábula mostra que os homens sensatos não desdenham nem mesmo as coisas modestas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 314

Esopo 216

O leão rei

Um certo leão tornou-se um rei que não era genioso, nem grosseiro, nem violento, mas dócil e justo, feito um ser humano. Em seu reinado houve um congresso de todos os animais, para ajustarem contas uns com os outros, o lobo com o cordeiro, a pantera com a camurça, o veado com o tigre e o cão com a lebre. Foi então que essa medrosa falou: “Rezei muito para ver este dia, em que os ínfimos apareçam aterradores para os violentos”.

[A fábula mostra] Que, quando existe justiça na cidade e todos pronunciam julgamentos justos, até a ralé vive despreocupadamente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 316

Esopo 217

O leão trancafiado e a raposa

Ao avistar um leão trancafiado, uma raposa parou ao lado dele e lhe proferiu insultos terríveis. Mas o leão lhe disse: “Não é você que me ultraja, e sim este infortúnio que desabou sobre mim”.

Esta fábula mostra que muitas pessoas ilustres, quando vitimadas por reveses, são vilipendiadas pela ralé.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 317

Esopo 218

O leão trancafiado e o lavrador

Um leão entrou no estábulo de um lavrador. Este, no desejo de apanhá-lo, fechou a porta do cercado. Impossibilitado de sair, o leão dizimou primeiro os rebanhos e, depois, se voltou também para os bois. E o lavrador, temendo por sua própria vida, abriu a porta. Quando o leão já estava longe, sua mulher, ao vê-lo chorando, disse: “Mas é bem feito para você! Por que resolveu trancafiar esse animal, que até de longe você devia evitar?”.

Assim, aqueles que provocam os mais fortes amargam com razão os próprios descuidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 318

Esopo 219

O leão velho e a raposa

Um leão já velho e sem condições de arranjar alimento com o próprio esforço, entendeu que devia fazê-lo por meio de algum recurso criativo. Então foi para uma caverna e lá se pôs deitado, fingindo que estava doente. E, assim, os animais que vinham lhe fazer uma visita, ele agarrava e devorava. Inúmeros animais haviam sido dizimados, quando uma raposa percebeu qual era a tática do leão e foi até lá. Ela, porém, se deteve do lado de fora da caverna e perguntou ao leão como ele estava. Ele disse: “Estou mal!”. E quis saber por que razão ela não entrava. A raposa respondeu: “Eu bem que teria entrado, se não estivesse vendo pegadas de muitos animais que entraram, mas de nenhum que saiu”.

Assim, os homens prudentes se safam dos perigos, porque se apoiam nos indícios e tomam precauções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 319

Esopo 221

A lebre e a raposa

[A fábula mostra] Que muitas vezes um mal enorme acontece para os curiosos que usam indevidamente sua curiosidade.

A lebre disse para a raposa: “É verdade que você logra muito? Se não for isso, por que você tem o nome de logro?”. E a raposa: “Se você tem dúvida, venha cá, que eu vou lhe oferecer um jantar”. A outra a seguiu, mas no interior da toca não havia para a raposa nenhuma refeição, a não ser a lebre, que disse então: “Com minha desgraça estou aprendendo de onde vem seu nome: não vem do lucro, mas do engodo”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 321