Bábrio 1.1

O arqueiro e o leão

Um homem foi caçar na montanha,

destro no disparo da flecha; aí se deu a fuga

dos animais todos e a correria cheia de medo.

Só o leão foi ousado e chamou-o para briga.

 “Espera, não tenhas pressa”, disse-lhe 5

o homem, “nem ponhas esperança na vitória;

na primeira topada com meu mensageiro, saberás

o que podes fazer”. A seguir ele dispara a flecha,

um pouco distanciado. E o dardo se ocultou

nos intestinos flácidos do leão. E o leão apavorado 10

ameaçou fugir para a solidão dos vales frondosos.

Dele, porém, uma raposa não longe estava postada.

Ela sugerindo-lhe ter coragem e ficar firme, ele diz:

“Não me desviarás nem me farás ciladas,

pois se ele me envia um mensageiro tão penetrante, 15

já estou sabendo o quão temível ele é pessoalmente”.

      [(A fábula diz) que é preciso, conhecer a tendência de cada pessoa a partir das propostas que ela faz. Também diz que a sabedoria difere da força física.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.2

O lavrador que perdeu seu alvião

Um lavrador que cavoucava um vinhedo

perdeu o alvião e se pôs a procurá-lo − 

vai que um dos roceiros dali o tivesse afanado!

Cada um deles negava. Não tendo o que fazer,

levou todos à cidade, para fazê-los prestar juramento; 5

pois imaginam que os deuses habitantes dos campos

são ingênuos e que os que moram cercados de muros

são atilados e em tudo estão de olho.

Quando, então, após adentrarem as portas, numa fonte

depuseram os embornais e começaram a lavar os pés, 10

um arauto anunciava mil dracmas de recompensa 

para uma notícia sobre os despojos subtraídos do deus.

Então, ao ouvir isso, o lavrador falou: “Vim mesmo à toa!

pois como um deus assim saberia de outros ladrões,

se ele não tem noção nem dos gatunos dele próprio, 15

e paga para saber se algum homem os conhece?”

[(A fábula diz) que é preciso desconfiar daqueles que prometem coisas de que não são donos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.3

A cabra e o cabreiro

Certa vez um pastor chamava as cabras para o cercado

e levá-las para o aprisco; umas vieram e outras, não.

Numa desobediente que comia no barranco

doce folhagem de cabralea e de lentisco,

ele acertou de longe uma pedra e quebrou-lhe o chifre. 5

Então se pôs a pedir-lhe: “ô cabrita, colega de servidão,

em nome de teu Pã, que vigia os vales frondosos,

não me denuncies, cabrita, ao nosso patrão;

pois foi sem querer que joguei a pedra e acertei o alvo.”

Ela disse: “E como posso esconder uma obra visível? 10

Meu chifre está quebrado, mesmo que eu me cale.”

[A fábula diz] que de modo nenhum se deve esconder as falhas concernentes ao Estado.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.4

O pescador e o peixe

Um pescador puxou uma rede recém-lançada

e calhou de ela estar repleta de pesca variada; 

dos peixes, o esguio, fugindo para o fundo,

 ia escapando pelas malhas da rede,

já o grande era apanhado e estendido no barco. 5

Ser pequeno é uma forma de salvação e proteção

contra males. Mas o grande de fama

raramente verias se desvencilhando de perigos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.5

Briga de galos

Era uma briga de galos de Tânagra,

que eram impetuosos, dizem, tal qual os humanos.

Deles, o derrotado (que estava todo machucado)

foi se encolher de vergonha num canto da casa.

E o outro logo saltou para o terraço 5

e, num alvoroço de asas, ficou dando gritos.

E esse uma águia o arrebatou do telhado

e foi-se embora; já o outro se pôs a rodear as galinhas,

de posse de recompensas melhores que a derrota.

     [Homem, também tu não sejas nunca fanfarrão,

mesmo a sorte te elevando mais que a outrem.

Até o não ser exitoso salvou a muitos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.6

O pescador e o peixinho

Um pescador que remexia a orla toda do mar

e preservava a doce vida com uma vara fina,

certa vez pescou com a linha de crina um peixe

pequeno, não dos viçosos para a frigideira.

Então ele, debatendo-se, lhe suplicava assim: 5

“Qual será o teu lucro? ou, que preço encontrarás?

Pois não estou formado; pelo contrário foi anteontem

que junto a esta rocha a mãe lampreia me expeliu.

Agora, então, deixa-me ir, não me mates à toa.

E assim que eu, empanturrado de algas marinhas, 10

me tornar grande, apropriado para ricos jantares,

tu virás então aqui, no futuro, e me apanharás.”

Tais coisas murmurando ele suplicava, debatendo-se,

mas não havia meio de sensibilizar o velho,

que, trespassando-o com um caniço agudo, disse: 15

“Quem não conservou as pequenas coisas, mas seguras,

é frívolo, se tentar caçar coisas invisíveis.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.7

O cavalo e o asno

Um homem tinha um cavalo e costumava conduzi-lo

ao seu lado, sem carga, e colocava o fardo

sobre um asno velho. Sentindo-se então muito cansado,

o asno se aproximou do cavalo e pôs-se a confabular:

“Se quisesses em meu benefício tomar uma parte do fardo, 5

rapidamente poderia revigorar-me. Do contrário, vou morrer.’

E ele disse: “Não vais prosseguir? Não me amoles!”

Ele a custo foi-se arrastando, calado, mas, esgotado de cansaço,

caiu e jazeu morto, como havia predito.

Sem demora, para junto dele o dono trouxe 10

o cavalo, foi desatando o carregamento todo

e não só colocou sobre ele a albarda da azêmola

como pôs por cima a pele do asno, após esfolá-lo.

O cavalo dizia: “Ai de mim! que má decisão.

Aquele com quem eu não quis partilhar o pouco, 15

a necessidade o põe inteiro sobre mim”.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.8

O árabe e o camelo

Um árabe pôs a carga num camelo e perguntou

o que ele preferia: seguir o caminho para cima

ou para baixo. E o camelo, com espirituosidade,

falou: “Então o caminho reto está bloqueado?”  

[A fábula é apropriada para homens pervertidos que também se desviam do caminho reto.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.9

O pescador flautista

Um pescador tinha flautas e tocava com habilidade.

E certa vez esperançoso de, sem esforço, uma fartura

de peixes atrair ao som agradável das flautas,

posta a rede, pôs-se a trinar melodiosamente.

E visto que, já cansado de soprar, estava tocava à toa, 5

lançou um arrastão e pegou peixes em quantidade.

E vendo-os se debaterem no chão cada um de um jeito,

disse tais deboches, enquanto limpava a rede:

“Dancem agora sem flauta mesmo. Era melhor vocês

terem dançado antes, quando eu tocava para coros.” 10

     [A fábula fala para os que realizam em vão algum trabalho  além do necessário]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]