Bábrio 1.100

O lobo e o cão

Um cão extremamente gordo encontrou-se com um lobo,

que pôs-se a perguntar onde ele recebera tanta comida,

que se tornara um cão enorme e cheio de banha.

“Um homem pródigo”, disse o outro, “dá-me de comer.”

“E o teu pescoço”, disse, “como é que ficou pelado?” 5

“Está com a carne esfolada por causa da coleira de ferro

que o meu tratador fez na forja e prendeu em mim.”

Disse então o lobo, a fazer chacota: “No que me toca

eu mando às favas essa vida de confortos,

ao preço de ter um ferro a esfolar-me o pescoço.” 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.103

O leão velho e a raposa

Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça

(pois há muito tempo já adentrara a velhice),

no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa

debilitada por doença, simulando respiração ofegante

e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5

Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;

todos se condoeram da enfermidade do leão

e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.

A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,

e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10

Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância

detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”

E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!

Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!

Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15

consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”

“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.

Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais

e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”

     Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20

mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.107

O leão e o rato

Um leão caçou um rato e estava prestes a jantá-lo,

quando o desditoso ladrão devasta-casa, à beira da morte,

tais palavras pôs-se a murmurar suplicante:

“Cervos e touros chifrudos é o que convém a ti

caçar, e encher a pança com essa carne; 5

um rato como refeição nem para tocar a ponta

de teus lábios será suficiente. Mas imploro-te, poupa-me.

Apesar de pequenino, honrar-te-ei com um favor igual.”

A rir a fera deixou que o suplicante continuasse vivo.

E tendo caído nas mãos de jovens amantes da caça 10

foi apanhado na rede e, abatido, acabou amarrado.

Então o rato pulou sorrateiro de um buraco,

com os minúsculos dentes serrou o nó resistente e

soltou o leão. Beneficiado com o direito de contemplar a luz

o rato, ao salvar-lhe a vida, lhe deu justa recompensa. 15

     A fábula é clara para os homens que raciocinam bem:

salvar os pobres, e não perder as esperanças neles,

se até um leão apanhado em armadilha um rato salvou.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]