Bábrio 1.10

Afrodite e a mocinha escrava

Um sujeito se apaixonou por uma escrava sua

feia e encardida, e lhe provia prontamente

tudo que ela pedia. E ela, cheia de ouro,

arrastando leve púrpura até as canelas,

arrumava toda briga com a dona da casa. 5

Mas a Afrodite, como causadora disso tudo,

ela honrava com lamparinas, e todo santo dia

oferecia sacrifício, orava, pedia, perguntava,

até que um dia a deusa, eles dormindo,

veio em sonho e, aparecendo à escrava, diz: 10

“não tenhas gratidão por mim, como a que te faz bela;

É com ele, a quem pareces bela, que estou furiosa.”

[todo o que se alegra com o feio como sendo belo é um sujeito louco e cego de juízo.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.11

A raposa com fogo no rabo

A uma raposa hostil a videiras e também a pomares

uma pessoa queria envolver em estranha tortura.

Prendeu então no seu rabo um tufo de linho, pôs fogo

e deixou-a fugir. Mas uma divindade protetora 

foi guiando para a lavoura do malfeitor 5

a raposa com o fogo. Era época de colheita,

e a bela produção do campo, repleta de esperanças.

Ele, então, foi atrás dela, deplorando a intensa labuta,

e Deméter nem olhou para o terreiro dele.

    [É preciso ser doce e não se irritar além da medida.

Existe uma certa punição da cólera, que posso controlar,

pois ela traz prejuízo para os coléricos insuportáveis.]  

[Render-se à cólera desmedida contra os próximos não é bom.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.15

O ateniense e o tebano

Um ateniense com um tebano caminhava

junto e, naturalmente, ia conversando;

e o colóquio fluía e chegou nos heróis,

assunto extenso e ademais desnecessário.

por fim o tebano enaltecia o filho de Alcmena: 5

o maior dos homens, e até mesmo dos deuses;

e o de Atenas dizia que muito melhor tinha sido

Teseu, que fora aquinhoado com uma sorte

realmente divina, enquanto Héracles, com a servidão.

Ia dizendo e vencendo; ele era de fato orador loquaz.

Então o outro, beócio que era, não tendo igual    

belicosidade com palavras, disse em estilo rústico:

“Chega! és o vencedor. Já que é assim, que Teseu

se zangue conosco, e Héracles, com os atenienses.”

[(A fábula diz) Que não se deve induzir os maiorais a irritação contra os súditos, nem a conversas-fiadas e discórdias]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.16

O lobo e a ama

Certa ama campônia ameaçava o garotinho

que chorava: “Cala-te. Se não, eu te jogo para o lobo!”

Um lobo a ouviu e, presumindo que a velha a verdade

falava, ficou aguardando, à espera de uma pronta refeição,

até que a criança à tardinha adormeceu, enquanto ele 5

faminto e de boca escancarada — afinal, era lobo! — foi-se embora,

após ter tomado assento junto de folgadas esperanças.

Então a loba, sua companheira, perguntou-lhe:        

“Como? Vieste sem nada trazer? Não era esse o teu costume!”

E ele falou: “Como, se eu dou crédito a uma mulher?” 10

   [A fábula nos ensina que não se deve acreditar em todo mundo, principalmente em uma mulher que faz grandes e numerosas promessas. Para aquele que foi logrado com enganos ocos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.19

A raposa e as uvas

De negra videira junto a um monte, uvas

pendiam em balanço. Ao vê-las viçosas,

uma ladina raposa por várias vezes deu saltos

tentando com as patas tocar no rubro fruto;

estava maduro, no ponto para a vindima. 5

Fatigando-se à toa, pois não podia tocá-los,

ela seguiu caminho, disfarçando assim a dor:

“Está verde o cacho, e não maduro, como eu cria.”

A fábula denuncia os que, fatigando-se em tarefas inviáveis e se frustrando com elas, adiam-nas com falsos modos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]