Bábrio 1.20

Héracles e o vaqueiro

Um vaqueiro vinha da aldeia, guiando a carroça,

quando ela despencou em uma funda ribanceira.

Mesmo precisando de ajuda, ele próprio ficou inerte

mas fez preces a Héracles, o único dos deuses

todos a quem prestava honras e reverências sinceras. 5

E o deus apareceu ao seu lado e falou: “Ajusta as rodas

e aguilhoa os bois. E aos deuses faze pedidos

desde que faças algo também; se não, pedirás em vão.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.22

O homem de meia idade e as amantes

Um homem que já estava na meia-idade

(não era jovem e nem era um velhote)

agitava fios brancos mesclados na negra cabeleira,

ainda ocupava as folgas com amores e festins.

Amava duas mulheres, uma nova e uma velha. 5

A garota buscava vê-lo como um jovem

amante, e a velha, como companheiro de velhice.

Assim, a cada ocasião, de seus cabelos a mocinha

pelava os fios embranquecidos que encontrava,

e a velha pelava os que encontrava negros, 10

até que o puseram careca a jovem e a velha,

[sempre perdendo um fio por vez, foi ficando pelado.

        Essa fábula declara isto a todos os homens:  

merece compaixão quem cai nas mãos de mulheres;

sempre ganhando uma mordida por vez, ele se acaba.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.23

O vaqueiro e o leão

Um vaqueiro estava em uma grande floresta

à procura de um touro cornudo que ele perdera.

Fez então fez promessa às ninfas das montanhas

e a Hermes do pastoreio e a Pã, deuses das cercanias:

ofertaria libação de um carneiro, se pegasse o ladrão. 5

Ao transpor o topo de um monte, vê o belo touro

feito banquete de um leão. Aí o desditoso roga e jura

oferecer também um boi, se puder livrar-se do ladrão.

     [Segue-se daí que nós, ao que parece, aprendemos isto:

não dirigir aos deuses uma promessa impensada,

    motivada por uma aflição momentânea.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.24

O Sol e as rãs

As núpcias do Sol estavam ocorrendo no verão.

Os animais organizavam para o deus alegres festejos

e nos charcos também as rãs dirigiam coros.

Interrompendo-as, disse-lhes um sapo: “Não é de peãs

o momento que vivemos, e sim de cuidados e de aflição. 5

Pois ele, que é um só, já resseca todo o brejo,

que males não sofreremos se, depois de casado,

procriar um filhote igual a si?”

Muitas pessoas levianas em excesso se alegram

com coisas que não lhes proporcionam alegria alguma. 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.29

O cavalho velho

Certa vez um cavalo velho foi vendido a um moinho.

Submisso  ao jugo da mó a tarde toda, pobre coitado,

e a gemer, ele então disse: “Vindo daquelas tais corridas,

fico dando voltas para moleiros em tais raias.”

     Não te envaideças tanto orgulhoso do auge de tua vida.

Em incontáveis amarguras se consome a velhice.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]