Bábrio 1.64

O abeto e o cardo

Rivalizavam entre si um abeto e um cardo.

E o abeto a si mesmo de muitas maneiras se gabava:

“Sou formoso e de tamanho considerável,

cresço na vertical, convivo com as nuvens,

sou vigamento do teto e quilha de barcos. 5

Como te comparas, espinheira, a uma árvore de tal porte?”

E o cardo disse ao abeto: “Se tiveres memória

dos machados que estão sempre a abater-te,

ser um cardo também tu escolherás de preferência.”

     Todo homem ilustre, muito mais do que os inferiores,

tanto obteve prestígio como suportou perigos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.66

Os dois embornais

Prometeu era um dos deuses, e um dos primeiros.

E foi ele — dizem — que plasmou da terra o homem

como senhor dos animais. E nele dois embornais

pendurou — dizem — de vícios humanos

ambos repletos, os alheios no embornal da frente 5

e os pessoais no embornal de trás, que era bem maior.

Por isso — é a minha impressão — as desgraças alheias

vemos com nitidez, mas ignoramos as de nossa casa.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.67

O leão e o onagro

Um onagro e um leão formaram uma sociedade de caça;

em força o leão era superior, mas o asno era melhor nas patas.

Quando conseguiram uma boa quantia de animais,

o leão faz a partilha, determina três porções

e diz: “Esta eu próprio pegarei em primeiro lugar, 5

pois sou rei; e pegarei também aquela

como sócio com direitos iguais. E a terceira, essa

irá causar-te um certo mal, se não quiseres fugir.”

     Mede a ti próprio. Nenhum negócio com homem

mais poderoso combines nem faças sociedade com ele. 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.72

A gralha e as aves

Íris, a mensageira do céu vestida de púrpura, certa vez

anunciou a instituição, na morada dos deuses, de um concurso

de beleza para os seres alados. Por toda parte a notícia correu logo

e de todos se apossou o desejo dos divinos prêmios.

De certa rocha inacessível a cabras gotejava uma fonte, 5

e a água armazenada era límpida, de verão.

Aí veio ter a raça de todos os pássaros:

eles lavavam seus rostos e suas canelas,

sacudiam as asas, penteavam os penachos.

Também àquela fonte veio ter um gaio, 10

velho, filho de uma gralha: fez apliques com

uma pena de um e outra de outro em seus ombros úmidos,

— era singular seu adorno matizado, de penas de todos eles! —.

e rumou à morada dos deuses, mais ancho que uma águia.

Assombrado, Zeus estava prestes a conceder-lhe a vitória, 15

se a andorinha, ateniense que era, não o desmascarasse,

sendo a primeira a arrancar-lhe uma pena.

Ele então lhe disse: “Não me delates!”

Mas nisso pôs-se a depená-lo a rola, o tordo,

a pega e a cotovia, que brinca nas sepulturas, 20     

e o gavião espreitador de pássaros-filhotes;

As demais fizeram igual e ele como gaio se fez notar.

Filho, adorna a ti próprio com adornos que te pertencem,

pois se te sobressaíres com recursos alheios, serás despojado.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]