Bábrio 1.77

O corvo e a raposa

Estava um corvo pousado com um queijo preso no bico,

quando uma raposa, cobiçando o queijo, matreira

logrou o pássaro com um palavreado assim:

“Ó corvo, tuas asas são belas, teu olhar é penetrante

e teu pescoço é digno de ser visto. Ostentas um peito de águia! 5

Com tuas garras, sobre todos os animais prevaleces.

Tu, um pássaro de tal porte, és mudo e não crocitas!”

O corvo, tocado no coração pelo encômio,

soltou da boca o queijo e ficou a emitir gritos.

E a espertalhona agarrou o queijo e com língua ferina 10

disse: “Tu não eras mudo! Ao contrário, tens voz!

Tens, ó corvo, tudo, tudo; só te falta juízo!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.79

A cadela que carregava carne

Uma cadela roubou carne de um açougueiro

e foi para junto de um rio. Na superfície da água

avistou o reflexo da carne em tamanho muito maior.

Então desfez-se da carne e lançou-se sobre o reflexo.

Não encontrando o reflexo nem a carne que rejeitara, 5

pôs-se a trilhar faminta o caminho de volta.

     [Insegura é a vida de todo homem insaciável

que se consome em vãs esperanças de negócios.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]