Esopo 1

As abelhas e o pastor

Fábula da abelha e do pastor, a qual exorta a não se auferir ganhos desonestos.

No oco de um carvalho, as abelhas fabricavam mel. Um pastor encontrou-as casualmente e decidiu pegar uma porção do mel, mas elas, vindo daqui e dali, puseram-se a voejar em volta dele e, com seus ferrões, o fizeram recuar. “Vou embora”, disse, por fim, o pastor, “não preciso de mel, se tenho que dar de cara com abelhas.”

As más vantagens são um perigo para quem as persegue.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 31

Esopo 2

As abelhas e Zeus

Enciumadas porque os homens usavam seu mel, as abelhas foram até Zeus pedir que ele as dotasse de força para golpear com os ferrões quem chegasse perto das colmeias a fim de roubar os favos. Mas Zeus se irritou com elas por causa dessa perversidade e determinou que as abelhas, tão logo picassem alguém, perderiam o ferrão e, com ele, também a vida.

Esta fábula cairia bem para homens perversos que se conformam em sair também eles prejudicados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 32

Esopo 3

O abeto e o espinheiro

Competiam entre si um abeto e um espinheiro. O abeto, para se vangloriar, disse: “Sou belo, alto, de bom porte e útil na construção de navios e de coberturas de templos. E você ainda tenta medir-se comigo?”. Ao que o espinheiro respondeu: “Se você se lembrar dos machados e dos serrotes que te abatem, também vai preferir ser um espinheiro”.

[A fábula mostra] Que na vida as pessoas não devem se deixar tomar pelo orgulho, pois a vida dos simples é que é livre de ameaças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 34

Esopo 4

O adivinho

Um adivinho fazia dinheiro sentado na praça pública. E, de repente, alguém veio lhe contar que a porta de sua casa estava arrombada e que tinham levado tudo o que havia lá dentro. Desnorteado, ele deu um pulo e, entre gemidos, já saía correndo para ver o que havia acontecido, quando uma pessoa que se achava por ali, ao ver o estado do adivinho, disse: “Mas você, que alardeia prever o futuro dos outros, como é que não previu o seu próprio?”.

Desta fábula poderia servir-se uma pessoa a propósito que administram daqueles homens precariamente a própria vida e se entregam a preocupações que não lhes dizem respeito.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 35

Esopo 5

Os adúlteros

Um homem saía à noite para encontrar-se às escondidas com uma mulher, com quem mantinha uma ligação adúltera. Ele se fazia reconhecer por meio de um sinal: sempre que chegava à casa, latia como um cãozinho, para ela abrir-lhe a porta. Fazia isso todas as vezes. Mas outro homem, que a cada anoitecer o via percorrendo aquele trajeto, atinou com a patifaria dele e uma noite pôs-se a segui-lo de longe, em segredo. O adúltero, sem desconfiar de nada, chegou à porta e agiu como de costume. O sujeito que o seguia assistiu a tudo e voltou para casa, mas na noite seguinte levantou-se, dirigiu-se antes que o outro para a casa da mulher adúltera e soltou latidos feito um cãozinho. E ela, segura de que era o amante, apagou a lamparina para que ninguém o visse e abriu a porta. Ele entrou e se deitou com ela. Pouco depois, o amante chegou e pôs-se a latir do lado de fora como um cãozinho, segundo o costume. O sujeito que estava acomodado lá dentro, ao notar o outro latindo lá fora como um cãozinho, pôs-se ele próprio a soltar latidos dentro da casa com uma voz forte, como se fosse um cão enorme. Então o que estava lá fora compreendeu que lá dentro havia um bem mais forte que ele e foi-se embora.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 36-37

Esopo 6

A águia de asas depenadas e a raposa

[A fábula mostra] Que é preciso oferecer boas recompensas aos benfeitores e afastar com prudência os perversos.

Certa vez, uma águia foi apanhada por um homem que cortou rente as penas de suas asas e deixou-a vivendo em casa com as galinhas. Envergonhada, ela de tristeza nada comia. Era qual um rei aprisionado. Mas outra pessoa a comprou do homem, arrancou-lhe as penas cortadas e, depois de esfregar nela unguento de mirra, fê-la emplumar. Então ela alçou voo, apanhou com as garras uma lebre e levou-a de presente para o dono. Ao ver isso, uma raposa lhe disse: “Dê presentes não a esse dono, mas ao anterior. Esse é bom por natureza, mas é o outro que você deve de preferência cativar, para ele não deixar você sem penas, caso venha a apanhá-la de novo”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 39

Esopo 7

A águia e a raposa

Uma águia e uma raposa tornaram-se amigas e resolveram morar perto uma da outra, fazendo do convívio uma garantia da amizade. E, assim, uma subiu bem no alto de uma árvore e fez seu ninho, enquanto a outra penetrou numa moita que havia ao pé da árvore e deu cria. Certa vez, porém, a águia estava precisando de comida e, assim que a raposa saiu para caçar, ela desceu voando à moita, apanhou as crias da raposa e devorou-as em companhia de seus filhotes. Quando a raposa voltou e percebeu o que havia ocorrido, afligiu-se não tanto pela morte de seus filhos como pela impossibilidade de vingar-se, pois, sendo ela um animal quadrúpede, era incapaz de perseguir um alado. Por isso, ficou de longe amaldiçoando o inimigo, que é só o que resta aos impotentes e fracos. Aconteceu, porém, que não demorou para a águia prestar contas de seu crime contra a amizade. Estando algumas pessoas no campo a imolar uma cabra, ela desceu voando, carregou do altar uma víscera em chamas e levou-a para o ninho. Nisso bateu um vento forte e, a partir de uma palhinha fina e seca, acendeu-se uma chama forte. Com isso, os filhotes, que ainda não sabiam voar, caíram queimados no chão. Então a raposa correu e, diante da águia, comeu todos eles.

A fábula mostra que os que violam amizade, mesmo um pacto de que escapem de ser punidos por suas vítimas impotentes, jamais se livram do castigo divino.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 40-41

Esopo 8

A águia e o escaravelho

Uma águia perseguia uma lebre que estava longe de qualquer proteção. Mas, assim que a lebre avistou um escaravelho, o único protetor que a ocasião lhe oferecia, ela foi até ele e suplicou ajuda. O escaravelho a amparou e, quando viu a águia se aproximando, pôs-se a pedir-lhe que não levasse embora sua protegida. A águia, porém, esnobou a pequenez do escaravelho e devorou a lebre diante dele. Ressentido, o escaravelho passou a espreitar os ninhos da águia e, cada vez que ela punha ovos, subia lá no alto e os fazia rolar e quebrar, até que a águia, encurralada, buscou refúgio junto de Zeus, que a tem como sua ave sagrada, e pediu-lhe que arrumasse um lugar seguro para a ninhada. Zeus lhe deu permissão para botar os ovos no colo dele. Ao ver isso, o escaravelho fez uma pelota de esterco, voou até alcançar o colo de Zeus e soltou-a lá. Foi aí que Zeus se levantou para sacudir o esterco e, sem se dar conta, deixou cair os ovos. Desde então, dizem que, na época em que os escaravelhos aparecem, as águias não fazem ninho.

A fábula ensina a não menosprezar pessoa alguma, considerando-se que ninguém é tão fraco a ponto de não poder um dia se vingar de um ultraje.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 42

Esopo 9

A águia flechada

[A fábula mostra] Que o aguilhão da dor é mais terrível quando uma pessoa enfrenta uma agrura provocada por seus próprios familiares.

Pousada no alto de um rochedo, uma águia tentava avistar lebres para caçar, quando foi atingida por um arqueiro. A flecha varou seu corpo e o entalhe com as penas estancou bem diante de seus olhos. Ao vê-lo, ela disse: “E tenho ainda outro desgosto: estar morrendo por causa de minhas penas!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 43

Esopo 10

A águia, a gralha e o pastor

Uma águia desceu voando do alto de um rochedo e apanhou um cordeiro. Uma gralha viu isso e, por inveja, quis imitá-la. E então, precipitando-se com muito estardalhaço, foi ter sobre um carneiro, mas suas garras se enroscaram nos tufos de lã. Sem conseguir alçar voo, ela ficou se debatendo, até que o pastor, ao notar o que se passava, foi correndo apanhá-la, aparou as pontas de suas asas e, quando caiu a noite, levou-a para suas crianças. E, quando elas perguntaram que pássaro era aquele, ele disse: “Pelo que eu bem sei, é uma gralha, mas, pelo que ela pretende, é uma águia”.

Assim, a rivalidade com os superiores, além de não levar acrescenta o riso a nada, ainda às desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 46