Esopo 111

O corvo e a cobra

Ao avistar uma cobra dormindo num lugar ensolarado, um corvo faminto desceu voando e arrebatou-a, mas ela se voltou e lhe deu uma picada. Então ele disse, prestes a morrer: “Pobre de mim! Encontrei esse achado e, por causa dele, estou perdendo a vida!”.

Esta fábula poderia ser contada a propósito de um homem que, para achar um tesouro, pôs em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 171

Esopo 112

O corvo e a raposa

Um corvo surripiou um pedaço de carne e foi pousar numa árvore, mas uma raposa o avistou e quis tomar-lhe a carne. Parou, então, diante da árvore e se pôs a fazer elogios à sua beleza e ao seu porte vistoso, dizendo também que ele era perfeito para ser o rei dos pássaros, e que isso certamente aconteceria se ele tivesse voz. E o corvo, querendo mostrar-lhe que tinha voz também, soltou a carne e ficou grasnando bem alto. A raposa, então, agarrou correndo a carne e disse-lhe: “Ei, corvo, se você também tivesse inteligência, nada lhe faltaria para ser rei de todos nós”.

Para um homem tolo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 172

Esopo 113

O corvo e Hermes

[A fábula mostra] Que os que foram ingratos com os benfeitores, quando caírem em dificuldades, não terão protetores.

Um corvo, preso numa armadilha, suplicou proteção a Apolo, prometendo queimar incenso em sua honra. Mas, quando se viu livre do perigo, esqueceu a promessa. Todavia, ao ser novamente apanhado em outra armadilha, deixou de lado Apolo e prometeu sacrifícios a Hermes. Este, então, lhe disse: “Calhorda! Como vou acreditar em você, que renegou e lesou seu primeiro senhor?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 173

Esopo 114

O corvo e o cisne

Fábula do corvo, a qual exorta a subordinar-se à natureza.

Um corvo viu um cisne e sentiu inveja de sua cor. Supondo que ele era daquela cor devido às águas em que se banhava, abandonou os altares onde encontrava alimento e passou a viver em lagos e rios. Com o banho, o corvo não mudou de cor, mas, privando-se de alimento, acabou morrendo.

O regime de vida não sabe mudar a natureza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 174

Esopo 115

A cotovia

Uma cotovia, apanhada numa armadilha, dizia lamuriosa: “Ai de mim, sou um pássaro infeliz e digno de pena! Não tirei de ninguém nem ouro, nem prata, nem outra riqueza qualquer. Mas foi uma migalha de pão, pequenina, que me trouxe a morte”.

A fábula [é oportuna] para os que enfrentam grande perigo por causa de um ganho mesquinho.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 175

Esopo 116

O criador de abelhas

Uma pessoa entrou na casa de um criador de abelhas, enquanto ele estava ausente, e furtou o mel e os favos. Quando ele voltou e viu as colmeias vazias, deteve-se para examiná-las. Nisso, as abelhas, ao retornarem da coleta, surpreenderam-no ali e dispensaram-lhe um tratamento horrendo, a golpes de ferrão. Então ele lhes disse: “Ô, bichos atrozes! Deixaram impune o ladrão de seus favos mas dão ferroadas em mim, que cuido de vocês!”.

Assim, certos homens que, por inadvertência, não se previnem contra os inimigos rechaçam os amigos, tomando-os por conspiradores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 176

Esopo 117

Diógenes e o careca

Diógenes, o filósofo cínico, ao ser insultado por um careca, revidou-lhe: “Eu não insulto você! Longe de mim tal coisa! Só estou louvando seus cabelos, que abandonaram uma cabeça miserável!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 179

Esopo 118

Diógenes viandante

Diógenes, o filósofo cínico, seguia por uma estrada, quando chegou à margem de um rio caudaloso e ali parou, sem saber o que fazer. Mas um homem que estava acostumado a atravessar a vau notou seu embaraço, aproximou-se e, com amabilidade, carregou-o para a outra margem. E lá ele ficou parado, condenando sua própria indigência, que o impedia de recompensar o benefício recebido. Estava ele ainda pensando nisso, quando o homem, ao ver outro viandante impossibilitado de atravessar o rio, veio correndo e levou-o para o outro lado. Diógenes, então, chegou perto dele e disse: “Eu já não lhe tenho mais gratidão pelo que ocorreu, pois estou vendo que você faz isso não por opção, mas por mania”.

A fábula mostra que os que beneficiam tanto os imprestáveis como as pessoas decentes merecem o rótulo de insensatos, e não de prestativos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 180

Esopo 119

O doente e o médico

Quando o médico perguntou ao doente como havia passado, ele respondeu que tinha suado mais que o normal. O médico disse: “Bom sinal!”. Mas quando, numa segunda oportunidade, o médico indagou-lhe como estava, ele respondeu que fora acometido de arrepios, seguidos de tremedeira. “Bom sinal também!”, disse o médico. E quando ele, na terceira visita, lhe fez perguntas a respeito da doença, o doente falou que estava sofrendo de diarreia. “Isso também é bom sinal!”, disse o médico, e foi embora. Então, a um parente que veio visitá-lo e lhe perguntou como estava, ele respondeu: “Eu, se quer mesmo saber, estou morrendo sob o efeito de bons sinais!”.

Assim, muitos homens são considerados venturosos pelos vizinhos, que se baseiam numa avaliação puramente exterior de coisas que eles próprios têm a maior dificuldade de suportar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 181

Esopo 120

A doninha e a lima

Uma doninha entrou na oficina de um ferreiro e se pôs a lamber uma lima que havia por lá. Aconteceu que sua língua foi se esfolando e dela passou a brotar muito sangue. A doninha, porém, se alegrou, presumindo que estivesse extraindo alguma coisa do ferro, até que, por fim, ficou sem língua.

A fábula é para aqueles que se prejudicam mutuamente em rixas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 183