Esopo 161

A hiena e a raposa

Dizem que as hienas de ano em ano trocam de sexo: se são machos num ano, no outro viram fêmeas. Assim, uma hiena viu uma raposa e começou a censurá-la, pois queria ser sua amiga, mas ela não aceitava. Então a raposa retrucou, dizendo: “Censure não a mim, mas à sua própria natureza, que não me deixa saber se você vai ser meu amigo ou minha amiga!”.

Para homem ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 241

Esopo 162

As hienas

Dizem que as hienas de ano em ano trocam de sexo, sendo machos num ano e fêmeas no outro. Certa vez, uma hiena macho se comportou, com uma hiena fêmea, de modo contrário à natureza. Então ela, tomando a palavra, disse: “Mas faça isso mesmo, meu caro, pois logo mais você vai se sujeitar ao mesmo tratamento!”.

Para magistrados que cobram satisfações de seus subalternos, mas, quando a situação se inverte, recebem deles a cobrança.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 242

Esopo 163

O homem cego

Um cego tinha o hábito de tatear qualquer animal que lhe fosse colocado nas mãos e, depois, dizer de que espécie ele era. Certa vez, quando lhe apresentaram um filhote de lobo, ele o apalpou e, meio indeciso, disse: “É um filhote, mas não sei se é de lobo ou de raposa ou de algum animal desse tipo. De uma coisa, porém, estou bem certo: este animal não é apropriado para acompanhar um rebanho de ovelhas”.

Assim, a índole dos perversos muitas vezes se faz notar até no corpo deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 243

Esopo 164

O homem contador de lorotas

Um atleta do pentatlo, que era constantemente tachado de fracote pelos cidadãos, certa vez se ausentou da cidade e, depois de algum tempo, retornou, vangloriando-se das muitas proezas que havia praticado em outros lugares. Contava que em Rodes dera um salto tão alto como nenhum vencedor da Olimpíada tinha conseguido dar, e afirmava que podia apresentar, como testemunhas de tal façanha, as pessoas que a presenciaram, quando elas viessem à cidade. Então um dos presentes retrucou-lhe: “Mas, se isso é mesmo verdade, você não precisa de testemunhas, meu caro. Faça de conta que Rodes é aqui e dê o salto!”.

A fábula mostra que é supérfluo todo discurso a respeito de uma ideia que se pode demonstrar com provas concretas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 244

Esopo 165

O homem covarde e os corvos

Estava um homem covarde saindo para a guerra, quando corvos começaram a crocitar. Ele, então, colocou as armas no chão e permaneceu quieto. Em seguida, pegou as armas e de novo ia partindo, quando eles tornaram a crocitar. O homem parou e, por fim, disse: “Vocês podem ficar gritando o mais alto que puderem, mas minha carne é que não vão saborear!”.

A fábula diz respeito aos covardes em demasia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 245

Esopo 166

O homem covarde que achou um leão de ouro

Um avarento covarde achou um leão de ouro e pôs-se a dizer: “Não sei como agir nesta situação. Estou aturdido e não sei o que fazer. Sinto-me dividido entre o amor ao dinheiro e a covardia inata. Quem teria feito um leão de ouro, algum acaso ou alguma divindade? Minha alma se digladia diante desta situação: ela ama o ouro, mas tem medo do artefato feito com o ouro. O desejo me impele a agarrá-lo e meu caráter, a afastar-me dele. Ó acaso que concede e que impede de aceitar! Ó tesouro que não dá prazer! Ó graça divina que se converte em desgraça! O que fazer? Como servir-me dele? A que expediente devo recorrer? Pois bem, vou embora e voltarei aqui trazendo todos os meus servos e, com a colaboração de tanta gente, vou pegá-lo. Só que eu mesmo ficarei assistindo de longe!”.

A fábula se aplica a uma pessoa rica que não tem coragem de tocar em seus bens e usufruir deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 246

Esopo 167

O homem e a raposa

Um homem tinha raiva de uma raposa porque ela lhe causava danos. Certa vez, ele a dominou e, querendo se vingar de uma vez por todas, pôs fogo num chumaço de estopa umedecido com óleo e amarrou-o na ponta do rabo da raposa. Mas um deus encaminhou-a para a plantação desse homem que a expulsara. Era o tempo propício para a colheita, e ele, por sua vez, foi atrás dela gemendo, porque nada iria colher.

[A fábula mostra] Que é preciso ser indulgente e não se irritar além da medida, pois muitas vezes da cólera nasce o dano para os irascíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 247

Esopo 168

O homem e o leão que seguiam juntos por um caminho

[A fábula mostra] Que muitos homens que em palavras alardeiam coragem e ousadia, a esses a experiência desmascara e denuncia.

Certa vez, um leão caminhava em companhia de um homem. E cada um, por sua vez, ia alardeando suas façanhas. No caminho, porém, havia uma estela de pedra com a representação de um homem esganando um leão. “Está vendo como somos superiores a vocês?”, disse o homem ao leão, apontando-a. E o leão, disfarçando um sorriso, retrucou: “Se leões soubessem esculpir, você veria muitos homens sob as patas de leões”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 248

Esopo 169

O homem e o sátiro

Dizem que, certa vez, um homem firmou um pacto de amizade com um sátiro. Quando chegou o inverno e começou a fazer frio, o homem levava as mãos à boca e as bafejava. O sátiro lhe perguntou por que agia daquele modo e ele respondeu que estava aquecendo as mãos, pois estavam geladas. Mais tarde foi-lhes servida a mesa e, como a refeição estivesse muito quente, o homem tomou uma pequena porção e, levando-a à boca, começou a soprá-la. E, quando o sátiro tornou a perguntar por que agia daquele modo, ele disse que estava esfriando a comida, pois estava quente demais. Então o sátiro lhe disse: “Eu abro mão de sua amizade, meu caro, pois dessa mesma boca você expele tanto o frio como o calor!”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar a amizade das pessoas de comportamento ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 249

Esopo 170

O homem grisalho e as duas cortesãs

Um homem grisalho tinha duas amantes, uma nova e outra velha. A idosa, envergonhada de manter relações com um homem mais novo, vivia lhe arrancando os cabelos pretos cada vez que ele a visitava. E a mais nova, tentando suavizar o fato de ter como amante um velho, arrancava os seus fios grisalhos. Assim, aconteceu que, de fio em fio, ele foi depilado pelas duas e ficou careca.

Assim, em qualquer situação o anômalo é prejudicial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 251