Esopo 81

O camelo, o elefante e o macaco

Estavam os animais irracionais decidindo a eleição de um rei, quando se apresentaram como candidatos um camelo e um elefante, esperançosos de serem os preferidos entre todos, por causa da força e da estatura de seus corpos. Todavia, um macaco disse que ambos eram inadequados: o camelo, porque não se irritava com os injustos, e o elefante, porque temia que um leitão, do qual ele tem pavor, viesse atacá-los.

A fábula mostra que até os empreendimentos muito importantes frequentemente se embaraçam, por causa de um pequeno detalhe.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 135

Esopo 82

Os caramujos

O filho de um lavrador estava assando caramujos e, ao ouvi-los crepitar, disse: “Ô, bichos horrendos, suas casas estão pegando fogo e vocês ficam cantando!”.

A fábula mostra que tudo o que é feito em hora inoportuna é digno de censura.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 136

Esopo 83

O caranguejo e sua mãe

A mãe do caranguejo estava lhe dizendo para não caminhar de lado nem esfregar as costas na rocha úmida. Então ele replicou: “Mãe, você, que está tentando me ensinar, trate de caminhar direito, que eu vou vendo e imitando!”.

Que convém àqueles [A fábula mostra] que criticam viver e andar direito, e só então dar lições de comportamento.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 138

Esopo 84

O caranguejo e a raposa

Um caranguejo saiu do mar e subiu até a praia, onde passou a viver sozinho. Uma raposa faminta, assim que o viu, foi correndo agarrá-lo, pois precisava alimentar-se. E, prestes a ser engolido, ele disse: “Mas é bem feito para mim, pois eu era um animal marinho e quis tornar-me um terrestre”.

Assim, também, os homens que abandonam as ocupações pessoais para empreender as que não lhes dizem respeito afligem-se com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 139

Esopo 85

Os carpinteiros e o pinheiro

Uns carpinteiros tentavam rachar um pinheiro e passaram a fazê-lo sem dificuldade depois de fabricar com ele algumas cunhas. Disse, então, a árvore: “Não recrimino tanto o machado que me corta, como estas cunhas nascidas de mim”.

[A fábula mostra] Que uma pessoa sofrer algum desaforo da parte de estranhos não é tão terrível quanto sofrê-lo da parte dos familiares.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 140

Esopo 86

O carreiro e Héracles

Um carreiro guiava a carroça para a aldeia, quando ela despencou num barranco fundo. Ele, em vez de acudir, ficou parado, inerte, pondo-se a rezar a Héracles somente, dos deuses todos o que ele mais honrava. Vem o deus, então, e lhe diz: Ajeite as rodas, aguilhoe os bois e reze, sim, aos deuses, mas se você não ajudar, é reza à toa!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 141

Esopo 87

O carro de Hermes e os árabes

Hermes, certa vez, percorria a terra inteira, conduzindo um carro lotado de mentiras, trapaças e fraudes, e em cada região ia distribuindo uma pequena porção da carga. Mas, quando chegou à terra dos árabes, dizem que o carro quebrou de repente e que eles furtaram a mercadoria como se fosse uma carga valiosa, impedindo o deus, assim, de seguir viagem para as terras de outros povos.

[A fábula mostra] Que os árabes superam a todas as raças em mentiras e fraudes, pois a verdade não existe na língua deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 142

Esopo 88

O carvalho e o cálamo

Um carvalho e um cálamo disputavam para ver quem tinha mais força. Quando soprou um vento violento, o cálamo se dobrou, curvando-se às rajadas, e escapou ileso. Já o carvalho, que tentou resistir aos ventos, foi arrancado pela raiz.

A fábula mostra que não se deve competir com os mais fortes nem enfrentá-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 143

Esopo 89

Os carvalhos e Zeus

Os carvalhos se queixavam a Zeus, dizendo: “Foi à toa que viemos ao mundo, pois, mais que todas as plantas, suportamos o abate violento!”. E Zeus: “Pois são vocês mesmos os responsáveis por se acharem em tal desventura. Se não fornecessem os cabos de machados e não tivessem utilidade para marceneiros e camponeses, nenhum machado iria abatê-los!”.

Certas pessoas que são responsáveis pelos próprios males, recriminam tolamente a divindade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 144

Esopo 90

O carvoeiro e o tintureiro

Um carvoeiro, ao ver um tintureiro estabelecer moradia perto da casa onde ele exercia sua profissão, foi lá propor-lhe que morassem juntos, explicando que se tornariam mais íntimos e, administrando um único estabelecimento, viveriam com mais lucros. O tintureiro lhe respondeu: “Mas para mim isso é completamente impossível! Pois o que eu alvejar você vai sujar de fuligem!”.

A fábula mostra que o diferente é insociável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 145