Esopo 11

O alcião

O alcião é uma ave que gosta de viver só e passa o tempo todo no mar. Dizem que, para se proteger dos caçadores, ele faz ninhos nos penhascos à beira-mar. Certa vez, um alcião que estava para pôr ovos acudiu a um penhasco e, ao ver uma rocha que avançava sobre o mar, ali fez seu ninho. Mas um dia ele tinha saído para caçar, quando aconteceu que o mar subiu, alvoroçado por um vento violento, e inundou o ninho, matando os filhotes. Ao voltar e constatar o ocorrido, o alcião disse: “Mas que desgraçado sou eu, que, para precaver-me das armadilhas da terra, refugiei-me neste rochedo que menos ainda merecia minha confiança”.

Assim, também, alguns homens que se acautelam dos inimigos caem desavisadamente nas mãos de amigos que são muito piores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 47

Esopo 12

O alforje

Quando outrora Prometeu moldou os homens, pendurou neles dois alforjes, um cheio de vícios alheios e, o outro, repleto de vícios pessoais, acomodando na frente o primeiro e prendendo atrás o segundo. Disso resultou que os homens enxergam num relance os vícios dos outros, mas não notam os próprios.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa em relação a um homem muito ocupado que não tem olhos para seus próprios afazeres, mas se ocupa daqueles que não lhe dizem respeito.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 48

Esopo 13

A andorinha e a cobra

Uma andorinha fez seu ninho num tribunal e saiu voando; nisso, uma cobra rastejou até lá e devorou os filhotes. Quando retornou e encontrou vazio o ninho, a andorinha pôs-se a gemer desesperadamente. Então outra andorinha tentou consolá-la, dizendo que ela não era a única a quem acontecera perder os filhos. E ela respondeu: “Mas choro não tanto por meus filhos quanto por ter sofrido agressão justamente neste lugar, onde os injustiçados encontram amparo”.

A fábula mostra que muitas vezes as desgraças se tornam mais cruéis para quem as sofre, quando partem de quem menos se espera.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 49

Esopo 14

A andorinha e a gralha

Uma andorinha competia em beleza com uma gralha, quando esta lhe retrucou, dizendo: “Mas sua beleza floresce na estação da primavera, enquanto meu corpo continua resistente também no inverno!”.

A fábula mostra que um corpo resistente é melhor que uma bela aparência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 50

Esopo 15

A andorinha e as aves

Fazia pouco tempo que o visgo havia brotado, quando uma andorinha, percebendo o perigo iminente para os animais alados, reuniu todas as aves e aconselhou-as a podar de preferência as árvores produtoras de visgo. E, caso isso não lhes fosse possível, elas deveriam recorrer aos homens e suplicar-lhes que não usassem o visgo para apanhá-las. As aves, porém, riram da andorinha, como se estivesse dizendo bobagens. Então ela se apresentou pessoalmente aos homens como suplicante. E eles a acolheram devido à sua inteligência e dividiram com ela suas moradias. Assim, aconteceu que, enquanto as demais aves silvestres são devoradas pelos homens, só a andorinha é protegida por eles e não tem medo de fazer ninho em suas casas.

A fábula mostra que os que preveem o futuro decerto evitam os perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 51

Esopo 16

A andorinha envaidecida e a gralha

[A fábula mostra] Que os gabolas constroem, com suas falas mentirosas, recriminações para si.

A andorinha disse para a gralha: “Eu sou virgem, ateniense, princesa, filha do rei de Atenas”. E em acréscimo falou também de Tereu, do abuso sofrido e da mutilação de sua língua. Então a gralha lhe disse: “Se, apesar de mutilada, você tagarela tanto assim, o que não faria se tivesse língua?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 52

Esopo 17

O arqueiro e o leão

Quando um arqueiro experiente foi caçar no alto de uma montanha, todos os animais puseram-se em fuga, mas um leão o desafiou para uma luta. E o arqueiro, após disparar a flecha e acertar o leão, disse: “Primeiro, veja como é meu mensageiro e, depois, também eu vou atacar você”. O leão, ferido, estava prestes a fugir em disparada, quando uma raposa lhe sugeriu que tivesse calma e não fugisse, mas ele retrucou: “De jeito nenhum você vai mudar meu rumo. Se ele tem um mensageiro penetrante assim, o que farei se ele vier em pessoa me atacar?”.

[A fábula mostra] Que devemos prever o final a partir do começo e só então proteger-nos do resto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 54

Esopo 18

As árvores e a oliveira

Certa vez, as árvores se comprometeram a escolher um rei para elas e disseram à oliveira: “Seja nossa rainha”. E a oliveira respondeu: “Abrir mão do prestígio que, graças a meu óleo, o deus e também os homens me conferem, para assumir o governo das árvores?”. E disseram as árvores à figueira: “Venha ser nossa rainha”. E a figueira respondeu: “Abrir mão da doçura e da excelência de meus frutos, para assumir o governo das árvores?”. E disseram as árvores ao piracanto: “Venha ser nosso rei”. E respondeu o piracanto às árvores: “Se vocês estão de verdade me ungindo rei, venham ficar embaixo de minha sombra. Do contrário, que saia fogo do piracanto e que ele consuma os cedros-do-líbano!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 55

Esopo 19

O assassino

Um assassino pôs-se a fugir, perseguido pelos parentes da vítima. Ao chegar às margens do rio Nilo, um lobo investiu contra ele. Apavorado, subiu numa árvore e se escondeu ali, quando avistou uma serpente avançar em sua direção. Deixou-se, então, cair no rio e foi devorado por um crocodilo.

A fábula mostra que para homens malditos não há lugar seguro nem na terra, nem no ar, nem na água.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 56

Esopo 20

O astrônomo

Um astrônomo tinha o hábito de sair de casa todas as noites para observar os astros. Certa vez, perambulava pela periferia, com toda a atenção voltada para o céu, quando por descuido caiu num poço e lá ficou, gemendo e gritando. Nisso, uma pessoa que passava por ali ouviu os gemidos, aproximou-se e, ao saber do incidente, disse: “Meu caro, você se ocupa em contemplar o que há no céu e não enxerga o que está na terra?”.

Desta fábula pode servir-se qualquer pessoa em relação àqueles homens que se vangloriam do extraordinário mas não conseguem realizar o corriqueiro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 57