Esopo 351

A toupeira

Uma toupeira (esse é um animal cego) disse para sua mãe: “Estou enxergando!”. E a mãe, para fazer um teste, deu-lhe um grão de incenso e perguntou o que era. Tendo ela respondido que era uma pedrinha, a mãe observou: “Minha filha, você não só está falha da visão como também já perdeu o olfato!”.

Assim, alguns fanfarrões fazem promessas impossíveis e, ao mesmo tempo, se traem nos pequenos detalhes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 499

Esopo 352

O touro e as cabras selvagens

Um touro, perseguido por um leão, fugiu para dentro de uma gruta, onde havia cabras selvagens. Enquanto apanhava delas, recebendo chifradas, disse: “Mas eu aguento isso porque tenho medo, não de vocês, mas daquele que está parado na entrada da gruta”.

Assim, muitos homens, de medo dos mais fortes, também suportam as insolências dos mais fracos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 500

Esopo 353

O touro, a leoa e o javali

Um touro encontrou um leão dormindo e matou-o a chifradas. Ao saber disso, a mãe do leão se pôs a pranteá-lo, amargurada. Ao vê-la proferindo os lamentos, um javali, postado à distância, lhe disse: “E o tanto de gente que também está pranteando filhos que vocês, leões, mataram?”.

Esta fábula mostra que uma pessoa será medida com a mesma medida que ela usa para medir os outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 501

Esopo 354

O trombeteiro

Um trombeteiro que reunia a tropa, ao ser capturado pelos inimigos, pôs-se a gritar: “Não me matem, homens, ao acaso e sem motivo. Eu não matei nenhum de vocês e nada mais possuo além deste bronze”. Então, eles disseram: “Pois essa é mais uma razão para sua morte, pois você não pode combater, mas estimula todos à batalha”.

A fábula mostra que muito se decepcionam aqueles que incitam às más ações os príncipes malvados e intoleráveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 502

Esopo 355

O urso e a raposa

Um urso dizia todo orgulhoso que era amigo dos homens, porque não comia cadáveres. Então, a raposa lhe disse: “Quem dera você esquartejasse cadáveres e não gente viva!”.

Esta fábula recrimina os ambiciosos, que passam a vida na hipocrisia e na presunção.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 505

Esopo 356

O vaqueiro que perdeu um bezerro e o leão

Enquanto pastoreava um rebanho de touros, um vaqueiro perdeu um bezerro. Após ter percorrido os arredores sem tê-lo encontrado, prometeu a Zeus que imolaria um cabrito, se localizasse o ladrão. Ao chegar a um bosque de carvalhos, avistou um leão devorando o bezerro. Apavorado, ergueu as mãos para o céu e disse: “Zeus soberano, antes eu lhe havia prometido imolar um cabrito se encontrasse o ladrão, mas agora prometo imolar um touro, se eu me safar das garras desse ladrão!”.

Esta fábula pode ser dita a propósito de homens que, quando estão desventurados em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que a encontram procuram evitá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 511

Esopo 357

A velha e o médico

Uma velha senhora, doente dos olhos, contratou os serviços de um médico. Ele vinha à sua casa, passava remédio em seus olhos e, enquanto ela os mantinha fechados, aproveitava para surrupiar algum de seus móveis. E, depois que levou tudo embora, encerrou o tratamento e cobrou o valor combinado. Tendo ela se recusado a fazer o pagamento, o médico levou-a ao tribunal. A senhora, no entanto, confirmou que tinha, sim, proposto a remuneração, se ele curasse seus olhos, mas na realidade o que aconteceu foi que com aquele tratamento ela tinha ficado pior do que antes. “Pois naquela época”, afirmou, “eu enxergava todos os móveis da casa, e agora não consigo ver nenhum!”.

Assim, os homens malvados não percebem que, por cobiça, arrastam contra si as provas de sua malvadeza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 512

Esopo 358

O velho e a Morte

Certa vez, um velho seguia um longo percurso carregando a lenha que cortara. Sob intensa fadiga, pôs o fardo no chão e ficou invocando a Morte. Quando ela surgiu e perguntou por que motivo ele a invocara, o velho respondeu: “Para que você levante do chão o meu fardo!”.

A fábula mostra que todo ser humano ama a vida, ainda que seja desditoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 514

Esopo 359

O vendedor de estátuas

Um homem fabricou um Hermes de madeira e levou-o ao mercado para vender. Como nenhum comprador se aproximava, ele, querendo atrair alguns, se pôs a gritar que estava vendendo um deus benfeitor e dispensador de lucros. Então, uma das pessoas que lá estavam lhe disse: “Mas se ele é assim, meu caro, por que é que você o está vendendo, em vez de tirar proveito de suas vantagens?”. Ele respondeu: “É que eu necessito de uma certa vantagem urgentemente, enquanto ele costuma conceder seus favores devagar”.

Para homem vergonhosamente cúpido que nem aos deuses tem respeito a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 515

Esopo 360

A vespa e a cobra

Uma vespa pousou na cabeça de uma cobra e não parava de atormentá-la, golpeando-a com o ferrão. E ela, com muita dor e sem ter como vingar-se do inimigo, enfiou a cabeça embaixo da roda de uma carroça e, assim, morreu, junto com a vespa.

Para aqueles que suportam morrer em companhia de seus inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 516