Esopo 371

A víbora e a cobra-d’água

Uma víbora ia regularmente beber numa fonte. Então, uma cobra-d’água, que morava na fonte, tentava impedi-la, indignada porque a outra, não contente com seu próprio território, também avançava no dela. E, como a desavença aumentava, elas resolveram que iriam às vias de fato e que os dois espaços, o da terra e o da água, seriam do vencedor. Marcado o dia, as rãs, que detestavam a cobra-d’água, procuraram a víbora para encorajá-la e prometeram que também combateriam ao lado dela. Quando o combate começou, a víbora se pôs a lutar contra a cobra-d’água e saiu vencedora, apesar de as rãs não terem feito outra coisa além de soltar gritos. Mesmo assim, a víbora as recriminou, porque elas haviam prometido atuar no combate como aliadas e, no entanto, além de não a terem socorrido, ainda por cima ficaram cantando. Então, as rãs disseram: “Mas você esteja certa de que nossa aliança consiste não em mãos, mas apenas em sons!”.

A fábula mostra que, lá onde há necessidade de mãos, de nada adianta a ajuda de palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 527

Esopo 372

A víbora e a lima

Uma víbora entrou na oficina de um ferreiro e pediu às ferramentas um donativo. Tendo sido atendida, chegou perto da lima e pediu que esta lhe desse algo. Então, ela respondeu: “Mas você é ingênua mesmo, se acha que vai obter alguma coisa de mim, que tenho por costume não dar, mas sim tirar de todo mundo!”.

A fábula mostra que são tolos os que têm expectativa de obter dos avaros algum lucro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 529

Esopo 374

Zeus e a cobra

Como Zeus estava celebrando suas núpcias, todos os animais subiram com presentes à sua morada. Então, uma cobra apanhou uma rosa na boca e subiu rastejando. Ao vê-la, porém, Zeus disse: “Mesmo dos pés de todos os outros eu aceito presentes, mas de tua boca eu não pego nada!”.

A fábula mostra que as cortesias dos malvados são temíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 533

Esopo 375

Zeus e a raposa

Maravilhado com o espírito sagaz e versátil da raposa, Zeus deu a ela a soberania sobre os animais irracionais. E, desejando saber se a raposa, que mudara de vida, tinha alterado também seus hábitos mesquinhos, lançou diante dela um escaravelho, justo no momento em que ela estava sendo carregada numa liteira. E a raposa, vendo o escaravelho voejando ao redor da liteira, não conseguiu se conter e, contrariando toda conveniência, deu um salto para tentar agarrá-lo. Então, Zeus ficou bronqueado com a raposa e a devolveu à sua antiga condição.

A fábula mostra que a natureza dos homens vis não se altera, mesmo que se revistam dos mais brilhantes ornamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 534

Esopo 376

Zeus e a tartaruga

Quando Zeus se casou, ofereceu um banquete a todos os animais. Só a tartaruga deixou de comparecer. E ele, com dificuldade de encontrar uma explicação para sua ausência, perguntou-lhe por que só ela não tinha ido ao jantar. Então, ela disse: “Casa da gente, casa excelente!”. Zeus ficou zangado e determinou que ela andaria por toda parte carregando a própria casa.

Assim, muitos homens preferem morar com simplicidade a receber tratamento de luxo em casa alheia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 535

Esopo 377

Zeus e a vergonha

Ao criar os homens, Zeus foi logo incutindo neles todos os sentimentos, tendo-se esquecido de um só: a Vergonha. E, como não tinha por onde fazê-la entrar, ordenou que ela entrasse pelo ânus. De cara ela disse que estava indignada com aquele tratamento. Mas, como Zeus a coagisse energicamente, ela respondeu: “Mas eu entro com uma condição: se alguma outra coisa entrar atrás de mim, eu saio na hora!”. Daí resultou que todos os prostitutos são desavergonhados.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um homem lascivo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 537

Esopo 378

Zeus e Apolo

Zeus e Apolo competiam na arte de manejar o arco. Assim que Apolo retesou o arco e lançou o dardo, Zeus esticou uma perna até a marca atingida por ele.

Assim, os que rivalizam com os superiores, além de não sobrepujá-los, ainda se expõem ao riso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 538

Esopo 379

Zeus e o tonel de bens

Zeus deixou com um homem um tonel, no qual havia guardado todos os bens. Mas o homem enxerido, querendo saber o que havia lá dentro, moveu a tampa e todos os bens alçaram voo rumo aos deuses.

[A fábula mostra] Que só a esperança convive com os homens, prometendo-lhes conceder os bens que escaparam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 539

Esopo 380

Zeus e os homens

Zeus criou os homens e ordenou a Hermes que despejasse neles inteligência. Então, ele a preparou e foi despejando uma porção igual em cada um. Assim se deu que os de pequeno porte ficaram repletos com a porção e se tornaram ajuizados, mas os grandes, visto que o líquido não era o bastante para todo o corpo (não chegava nem até os joelhos!), ficaram sem juízo.

Para homem de corpo grandalhão, mas de alma irracional, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 540