Fedro 1.1

O lobo e o cordeiro

A um mesmo rio tinham vindo um lobo e um cordeiro,

compelidos pela sede. O lobo estava mais acima

e, bem mais abaixo, o cordeiro. Então, incitado por sua goela

perversa, o bandido suscitou um motivo de briga.

“Por que”, diz ele, “me tornaste suja a água, 5

que estou bebendo?” O lanígero, em resposta, morrendo de medo:

“Como posso, pergunto, fazer isso de que te queixas, lobo?

É de ti para os meus goles que a água corre”.

Repelido pela força da verdade, diz aquele:

“Há seis meses falaste mal de mim”. 10

Respondeu o cordeiro: “Mas eu nem era nascido”.

“O teu pai, por hércules”, diz aquele, “falou mal de mim”.

E assim, o agarra e dilacera com injusta morte.

Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens

que. com falsos motivos, oprimem os inocentes. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.3

A gralha presunçosa e o pavão

Para que ninguém se meta a vangloriar-se com bens alheios

mas, antes, procure levar a vida conforme sua própria condição,

Esopo nos apresentou este exemplo.

Uma gralha, impada de vão orgulho,

pegou do chão as penas que tinham caído de um pavão 5

e se enfeitou. Em seguida, desprezando os seus,

se misturou a um formoso bando de pavões.

Estes, porém, arrancam as penas da ave descarada

e a afugentam a bicadas. Duramente desancada, a gralha,

abatida, pôs-se a voltar para junto dos de sua espécie; 10

repelida por eles, teve de aguentar uma triste infâmia.

Então uma daquelas que ela tinha desprezado antes:

“Se tivesses ficado contente com nossas moradas

e aceitado conformar-se com o que a natureza te dera,

nem terias sofrido aquela afronta 15

nem a tua desgraça sentiria esta repulsa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.4

O cão levando um pedaço de carne por um rio

Perde merecidamente o próprio quem cobiça o alheio.

Um cão, levando a nado por um rio um pedaço de carne,

viu no espelho das águas a sua própria imagem

e, julgando ser outra presa levada por um outro,

quis arrebatá-la; mas sua avidez foi enganada: 5

e deixou cair o alimento que trazia na boca,

e não pôde, é claro, pegar o que desejava.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.5

A vaca e a cabrita, a ovelha e o leão

Nunca é de confiança a sociedade com um poderoso.

Esta fábula atesta a minha afirmação.

A vaca e a cabrita e a ovelha, sofredora de injustiça,

foram sócias do leão nos bosques.

Como eles tinham caçado um cervo de grande tamanho, 5

o leão, feitas as partes, assim falou:

“Eu levo a primeira, visto que me chamo leão;

a segunda dareis a mim, porque sou sócio;

em seguida, porque sou mais forte, virá para mim a terceira;

e se alguém tocar a quarta, cairá em desgraça”. 10

Assim, a maldade sozinha levou a presa toda.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.6

As rãs para o sol

As concorridas núpcias de um ladrão, vizinho seu,

viu Esopo e, de imediato, começou a narrar:

Como um dia o Sol quisesse casar-se,

as rãs ergueram para os astros uma gritaria.

Movido pelo alvoroço, quis Júpiter saber 5

o motivo da queixa. Então, uma habitante do charco

disse: “Agora um só já seca todos os lagos

e nos obriga a morrer desgraçadas numa árida morada.

O que acontecerá então, se ele gerar filhos?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.7

A raposa para uma máscara de tragédia

Uma raposa tinha visto por acaso uma máscara de tragédia:

“Oh, que grande beleza” diz “não tem cérebro!”

Isto foi dito para aqueles aos quais a fortuna atribuiu

honra e glória e tirou o senso comum.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.8

O lobo e a grua

Quem espera dos malvados a recompensa de um serviço prestado,

erra duas vezes: primeiro, porque ajuda os que não merecem;

segundo, porque já não pode escapar sem dano.

Como o osso devorado ficara enroscado na garganta de um lobo,

este, vencido por intensa dor, começou a tentar uns e outros 5

com uma recompensa, para que lhe extraíssem aquele mal.

Finalmente uma grua foi persuadida pelo juramento,

e, confiando à goela dele a longura de seu pescoço,

fez a perigosa operação no lobo.

Como reclamasse o prêmio combinado pelo serviço: 10

“És ingrata”, disse o lobo, “tu que tiraste a cabeça

intacta de minha boca e reclamas uma recompensa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.9

O pássaro dando conselhos a uma lebre

Que é tolice dar conselho aos outros e não se precaver

mostraremos em poucos versos.

Um pássaro recriminava uma lebre que, apanhada por uma águia,

dava sentidos soluços: “Onde está”, diz,

“aquela tua conhecida rapidez? Por que os teus pés pararam assim?” 5

Enquanto falava, um gavião o arrebata, sem que ele se dê conta,

e, enquanto ele grita em vão lamento, o mata.

E a lebre, já meio morta, diz em consolo de sua morte:

“Tu, que há pouco em segurança rias de minha desgraça,

com queixa similar, lamentas o teu destino.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.