Fedro 1.10

O lobo e a raposa com o macaco como juiz

Todo aquele que se tornou famoso uma vez por uma torpe mentira,

mesmo que diga a verdade, perde o crédito.

Atesta isso uma breve fábula de Esopo.

Um lobo acusava uma raposa pelo crime de furto;

ela negava ter relação com a culpa. 5

Então o macaco se sentou entre eles como juiz.

Depois que um e outro defenderam sua causa,

diz-se que o macaco pronunciou a sentença:

“Tu não pareces ter perdido o que pedes;

quanto a ti, creio que roubaste o que negas lindamente”. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.11

O burro e o leão caçando

O desprovido de valor, quando alardeia com palavras sua glória,

engana os desconhecidos; para os conhecidos, é motivo de zombaria.

Um leão, querendo caçar em companhia de um burro,

camuflou-o entre os ramos e ao mesmo tempo exortou-o

a aterrorizar as feras com sua voz insólita, 5

e ele as pegaria ao tentarem fugir. Então o orelhudo

ergue subitamente um urro com todas as suas forças

e abala os bichos com o inédito portento.

Esses, buscando aterrorizados as saídas conhecidas,

são abatidos pelo terrível ataque do leão. 10

Depois que este se cansou da matança, chama o burro

e manda-lhe conter a voz. Então ele, insolente:

“Que tal te parece o efeito de minha voz?”

“Notável”, diz, “de tal modo que, se eu não conhecesse

o teu ânimo e a tua raça, eu teria fugido com igual medo.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.12

O cervo junto à fonte

Esta narração é testemunha de que, muitas vezes, se revelam

mais úteis as coisas que desprezas do que as louvadas.

Um cervo, quando bebia junto à fonte, parou

e viu na água a sua imagem.

Aí, enquanto louvava admirando seus ramosos chifres 5

e criticava a demasiada finura de suas pernas,

aterrado subitamente pelas vozes dos caçadores,

pôs-se a fugir pelo campo e com sua corrida ligeira

enganou os cães. Então o bosque abrigou o animal

e nele, impedido pelos chifres retidos 10

começou a ser dilacerado pelas cruéis mordidas dos cães.

Diz-se que então, enquanto morria, emitiu esta voz:

“Ó desgraçado de mim! que só agora entendo

quão útil foi para mim o que eu tinha desprezado

e o que eu tinha louvado quanto sofrimento me trouxe.” 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.13

A raposa e o corvo

Quem se alegra em ser louvado com palavras enganosas

normalmente paga a pena com vergonhosa penitência.

Como um corvo, pousado no alto de uma árvore,

quisesse comer um queijo, roubado de uma janela,

uma raposa o viu e em seguida começou a falar assim: 5

“Ó que brilho é o de tuas penas, corvo!

Que grande formosura trazes no corpo e no rosto!

Se tivesses voz, nenhuma ave seria superior a ti.”

E de tolo aquele, querendo ostentar a voz,

deixou cair da boca o queijo, que rapidamente 10

a dolosa raposa arrebatou com seus ávidos dentes.

Só então é que a iludida estupidez do corvo gemeu.

{Com este fato é provado o quanto vale o talento;

A sabedoria sempre prevalece sobre a coragem.}

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.14

De sapateiro a médico

Um mau sapateiro, perdido na miséria,

após começar a exercer medicina em lugar desconhecido

e vender um antídoto com um falso nome,

adquiriu fama com seus verborrágicos rodeios.

Como jazesse abatido por uma grave doença, 5

o rei da cidade, para experimentá-lo,

pediu um copo; em seguida, verteu água no copo

fingindo misturar ao antídoto um veneno

e mandou-o beber, depois de prometer uma recompensa.

Ante o temor da morte, ele então confessou 10

que se tornara médico famoso não pelo domínio da ciência,

mas graças à estupidez do povo.

Após convocar uma assembleia, o rei acrescentou o seguinte:

“De quão grande loucura julgais estar vós,

que não hesitais em confiar vossas cabeças 15

a quem ninguém confiou os pés para calçá-los?”

Eu diria realmente que isto diz respeito àqueles

cuja estupidez é o lucro da falta de vergonha.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.15

O burro para o velho pastor

Na mudança de governo, frequentemente

os pobres nada mudam, exceto os costumes de seu senhor.

Que isso é verdade esta pequena fabulazinha mostra.

Um velho medroso apascentava seu burro no prado.

Aterrorizado pelo repentino clamor dos inimigos, ele 5

aconselhava ao burro que fugisse, para que não pudessem ser capturados.

Mas aquele, tranquilo: “Pergunto: acaso julgas

que o vencedor me porá duas cargas?”

O velho disse que não. “Então que diferença faz para mim

a quem eu sirva, se carrego a minha carga?” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.16

A ovelha, o cervo e o lobo

Quando um trapaceiro chama homens ímprobos como fiadores,

pretende não resolver o negócio, mas causar o mal.

Um cervo pedia a uma ovelha um módio de trigo,

sendo o lobo o fiador. Mas ela, temendo previamente o engano:

“O lobo sempre teve o costume de roubar e ir embora, 5

tu, o de fugir da vista com ímpeto veloz;

onde vos procurarei quando chegar o dia?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.17

A ovelha, o cão e o lobo

Os mentirosos costumam sofrer o castigo por seus malefícios.

Como um cão caluniador reclamasse a uma ovelha

um pão que afirmava ter-lhe confiado,

o lobo, citado como testemunha, disse que

não era devido um só; mas afirmou serem dez. 5

A ovelha, condenada pelo falso testemunho,

pagou o que não devia. Poucos dias depois

a ovelha viu o lobo jazendo numa armadilha:

“Esta”, diz, “é a recompensa dada pelos deuses para as trapaças.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.18

A mulher prestes a dar à luz

Ninguém retorna de bom grado ao local que o prejudicou.

No instante do parto, uma mulher, completados os meses,

estava deitada no chão, soltando dolorosos gemidos.

O marido exortou-a a estender seu corpo na cama,

onde melhor liberaria o ônus da natureza. 5

“De modo algum”, diz, “eu confio poder

terminar o mal no lugar em que seu início foi concebido.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.19

A cadela prestes a dar cria

As lisonjas de um homem mau têm armadilhas:

os versos que seguem advertem para que as evitemos.

Como uma cadela prestes parir pedisse a uma outra

para ter a cria em seu abrigo, facilmente

obteve a permissão; depois, à outra, que pedia de volta o lugar, 5

dirigiu súplicas, pedindo mais um tempinho,

até que ela pudesse levar seus filhotes mais fortalecidos.

Esgotado também este tempo, a outra começou a exigir com firmeza

o seu cubículo.“Se para mim e minha turma

puderes ser páreo”, diz a cadela, “eu cederei o lugar.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.