Fedro 1.20

Os cães famintos

Um plano tolo não só não tem efeito

mas também arrasta os mortais para a desgraça.

Uns cães viram um couro no fundo de um rio.

Para que pudessem tirá-lo mais facilmente e comê-lo,

começaram a beber toda a água: mas morreram arrebentados 5

antes de atingirem o que buscavam.  

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.21

O velho leão, o javali, o touro e o burro

Todo aquele que perdeu sua antiga dignidade,

é, em sua grave queda, objeto de galhofa até mesmo para os covardes.

Como um leão, enfraquecido pelos anos e privado de suas forças,

jazesse, exalando seu último suspiro,

um javali veio até ele com seus dentes fulminantes 5

e, com um golpe, se vingou de uma antiga ofensa.

Mais tarde um touro perfurou com seus chifres hostis

o corpo do inimigo. Um burro, quando viu a fera

sendo ferida impunemente, quebrou-lhe a fronte com coices.

E ele, morrendo: “Suportei que os fortes indignamente 10

me insultassem; a ti, desonra da natureza,

visto ser eu obrigado a suportar-te, pareço morrer duas vezes.”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.22

A doninha e o homem

Uma doninha, apanhada por um homem, querendo escapar

da morte iminente, diz: “Por favor, me poupa,

pois sou eu que te limpo a casa dos nocivos ratos.”

Respondeu aquele: “Se fizesses isso por minha causa,

seria digno de gratidão e eu te daria o perdão que suplicas. 5

Agora, visto que trabalhas para desfrutares dos restos

que os ratos vão roer e, ao mesmo tempo, devorares os próprios ratos,

não queiras me convencer a aceitar um favor inexistente.”

E, tendo assim falado, matou a malvada.

Devem reconhecer que isto foi dito para si aqueles 10

cuja utilidade particular serve a eles próprios

e se gabam perante os incautos um vão merecimento.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.23

O cão fiel

O repentinamente generoso é agradável aos tolos,

porém arma insídias inúteis aos experimentados.

Como um ladrão noturno tivesse jogado um pão a um cachorro,

experimentando se ele podia ser seduzido pela comida atirada,

diz o cachorro: “Ora, queres calar minha língua 5

para eu não ladrar em defesa da casa de meu dono? Estás muito enganado.

Pois essa tua súbita bondade me ordena

a ficar atento, para que não obtenhas lucro por minha culpa.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.24

A rã que arrebentou e o boi

O fraco, quando quer imitar o forte, perece.

Certa vez, uma rã avistou um boi no prado

e, tocada pela inveja de tão grande corpulência,

estufou sua rugosa pele; então a seus filhos

perguntou se estava maior do que o boi. 5

Eles disseram que não. Novamente ela estirou a pele

com maior esforço e, de modo semelhante, perguntou

quem era maior. Eles disseram o boi.

Por fim, indignada, querendo mais vigorosamente

inflar-se, morreu com o corpo arrebentado. 10

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.25

Os cães e os crocodilos

Os que dão maus conselhos a homens cautelosos

tanto perdem tempo quanto são torpemente zombados.

É tradição que, no rio Nilo, os cães bebem correndo

para não serem pegos pelos crocodilos.

Por isso, como um cão tivesse começado a beber correndo, 5

disse assim um crocodilo: “Lambe quanto quiseres devagar;

não tenhas medo.” Mas aquele: “Eu faria isso, por hércules,

se não soubesse que estás desejoso de minha carne.”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.26

A raposa e a cegonha

A ninguém se deve prejudicar; se alguém, porém, fizer algum dano,

a fabulazinha adverte que deve ser castigado na mesma moeda.

Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha

para um jantar e lhe serviu num prato raso

um caldo líquido, que de nenhum modo 5

a cegonha faminta poderia degustar.

Quando esta retribuiu o convite à raposa, serviu uma garrafa

cheia de alimento triturado; inserindo nela o seu bico,

ela própria se sacia e atormenta de fome sua convidada.

Enquanto esta lambia em vão o pescoço da garrafa, 10

a ave peregrina, pelo que ouvimos, falou assim:

“Cada um deve suportar com igual ânimo os seus próprios exemplos.”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.27

O cão, o tesouro e o abutre

{Este tema pode ser apropriado para os avarentos e para os que,

tendo nascido humildes, se esforçam por ser chamados de ricos.}

Desenterrando ossos humanos, um cão encontrou um tesouro

e, uma vez que violara os deuses Manes,

lhe foi incutida a cobiça das riquezas 5

para expiar sua culpa contra a sagrada religião.

E assim, enquanto vigiava o ouro, esqueceu-se do alimento

e morreu de fome; dizem que um abutre, pousando

sobre ele, falou: “Ó cão, jazes merecidamente,

tu, que de repente ambicionaste régias riquezas, 10

foste concebido numa encruzilhada e criado no esterco.”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.28

A raposa e a águia

Os homens, por mais altos que estejam, devem temer os humildes,

porque a vingança é acessível ao hábil talento.

Certa vez uma águia apanhou os filhotes de uma raposa

e pôs em seu ninho para que seus filhos os tomassem como alimento.

A mãe, tendo-a seguido, começou a rogar 5

que não causasse a uma infeliz como ela uma dor tão grande.

Aquela desdenhou, segura certamente em seu próprio local.

A raposa tomou de um altar uma tocha acesa

e cercou de chama toda a árvore,

misturando a dor de seu sangue ao dano do inimigo. 10

A águia para livrar os seus do perigo de morte

entregou suplicante à raposa seus filhos sãos e salvos.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.29

O burro rindo do javali

Muitas vezes os tolos, buscando o riso fácil,

satirizam os outros com grave ofensa

e instigam contra si um perigoso risco.

Um burrico, encontrando-se com um javali,

disse: “Salve, irmão.” Aquele, indignando-se, repudia 5

a deferência e pergunta por que gosta de mentir assim.

O burro, mostrando o pinto: “Se dizes que não sou semelhante a ti,

com certeza isto aqui é semelhante ao teu focinho.”

O javali, embora quisesse fazer um nobre ataque,

reprimiu a ira e: “A vingança é fácil para mim, 10

mas não quero me sujar com sangue ignóbil.”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.