Bábrio 1.15

O ateniense e o tebano

Um ateniense com um tebano caminhava

junto e, naturalmente, ia conversando;

e o colóquio fluía e chegou nos heróis,

assunto extenso e ademais desnecessário.

por fim o tebano enaltecia o filho de Alcmena: 5

o maior dos homens, e até mesmo dos deuses;

e o de Atenas dizia que muito melhor tinha sido

Teseu, que fora aquinhoado com uma sorte

realmente divina, enquanto Héracles, com a servidão.

Ia dizendo e vencendo; ele era de fato orador loquaz.

Então o outro, beócio que era, não tendo igual    

belicosidade com palavras, disse em estilo rústico:

“Chega! és o vencedor. Já que é assim, que Teseu

se zangue conosco, e Héracles, com os atenienses.”

[(A fábula diz) Que não se deve induzir os maiorais a irritação contra os súditos, nem a conversas-fiadas e discórdias]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.16

O lobo e a ama

Certa ama campônia ameaçava o garotinho

que chorava: “Cala-te. Se não, eu te jogo para o lobo!”

Um lobo a ouviu e, presumindo que a velha a verdade

falava, ficou aguardando, à espera de uma pronta refeição,

até que a criança à tardinha adormeceu, enquanto ele 5

faminto e de boca escancarada — afinal, era lobo! — foi-se embora,

após ter tomado assento junto de folgadas esperanças.

Então a loba, sua companheira, perguntou-lhe:        

“Como? Vieste sem nada trazer? Não era esse o teu costume!”

E ele falou: “Como, se eu dou crédito a uma mulher?” 10

   [A fábula nos ensina que não se deve acreditar em todo mundo, principalmente em uma mulher que faz grandes e numerosas promessas. Para aquele que foi logrado com enganos ocos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.19

A raposa e as uvas

De negra videira junto a um monte, uvas

pendiam em balanço. Ao vê-las viçosas,

uma ladina raposa por várias vezes deu saltos

tentando com as patas tocar no rubro fruto;

estava maduro, no ponto para a vindima. 5

Fatigando-se à toa, pois não podia tocá-los,

ela seguiu caminho, disfarçando assim a dor:

“Está verde o cacho, e não maduro, como eu cria.”

A fábula denuncia os que, fatigando-se em tarefas inviáveis e se frustrando com elas, adiam-nas com falsos modos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.20

Héracles e o vaqueiro

Um vaqueiro vinha da aldeia, guiando a carroça,

quando ela despencou em uma funda ribanceira.

Mesmo precisando de ajuda, ele próprio ficou inerte

mas fez preces a Héracles, o único dos deuses

todos a quem prestava honras e reverências sinceras. 5

E o deus apareceu ao seu lado e falou: “Ajusta as rodas

e aguilhoa os bois. E aos deuses faze pedidos

desde que faças algo também; se não, pedirás em vão.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.22

O homem de meia idade e as amantes

Um homem que já estava na meia-idade

(não era jovem e nem era um velhote)

agitava fios brancos mesclados na negra cabeleira,

ainda ocupava as folgas com amores e festins.

Amava duas mulheres, uma nova e uma velha. 5

A garota buscava vê-lo como um jovem

amante, e a velha, como companheiro de velhice.

Assim, a cada ocasião, de seus cabelos a mocinha

pelava os fios embranquecidos que encontrava,

e a velha pelava os que encontrava negros, 10

até que o puseram careca a jovem e a velha,

[sempre perdendo um fio por vez, foi ficando pelado.

        Essa fábula declara isto a todos os homens:  

merece compaixão quem cai nas mãos de mulheres;

sempre ganhando uma mordida por vez, ele se acaba.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]