Bábrio 1.103

O leão velho e a raposa

Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça

(pois há muito tempo já adentrara a velhice),

no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa

debilitada por doença, simulando respiração ofegante

e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5

Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;

todos se condoeram da enfermidade do leão

e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.

A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,

e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10

Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância

detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”

E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!

Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!

Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15

consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”

“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.

Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais

e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”

     Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20

mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.107

O leão e o rato

Um leão caçou um rato e estava prestes a jantá-lo,

quando o desditoso ladrão devasta-casa, à beira da morte,

tais palavras pôs-se a murmurar suplicante:

“Cervos e touros chifrudos é o que convém a ti

caçar, e encher a pança com essa carne; 5

um rato como refeição nem para tocar a ponta

de teus lábios será suficiente. Mas imploro-te, poupa-me.

Apesar de pequenino, honrar-te-ei com um favor igual.”

A rir a fera deixou que o suplicante continuasse vivo.

E tendo caído nas mãos de jovens amantes da caça 10

foi apanhado na rede e, abatido, acabou amarrado.

Então o rato pulou sorrateiro de um buraco,

com os minúsculos dentes serrou o nó resistente e

soltou o leão. Beneficiado com o direito de contemplar a luz

o rato, ao salvar-lhe a vida, lhe deu justa recompensa. 15

     A fábula é clara para os homens que raciocinam bem:

salvar os pobres, e não perder as esperanças neles,

se até um leão apanhado em armadilha um rato salvou.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 2.1

O novilho, o leão e o ladrão

Um leão estava de pé sobre um novilho abatido.

Um ladrão intervém, reclamando uma parte.

“Eu te daria” diz “se não tivesses o costume de pegar por ti mesmo”;

e rechaçou o malandro. Casualmente, um inofensivo

viajante chegou ao mesmo local 5

e, ao ver o feroz animal, retrocedeu.

E aquele lhe diz pacificamente: “Não há por que temer;

e pega sem medo a parte que lhe é devida

por tua modéstia.” Então, repartida a presa,

dirigiu-se à floresta, para deixar o caminho livre ao homem. 10

Um exemplo perfeitamente egrégio e louvável;

porém a ambição é rica e o recato, pobre.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.2

A velha e a garota que amavam um jovem

Que os homens são de todo modo espoliados pelas mulheres,

amem ou sejam amados, aprendemos certamente pelos exemplos.

Uma mulher não inexperiente, ocultando seus anos

com elegância, amava um certo homem de idade mediana

e desse mesmo homem uma linda jovem tinha conquistado o coração.5

As duas, querendo parecer iguais a ele na idade,

começaram a arrancar alternadamente os cabelos do homem.

Este, que achava que era cuidado pelo capricho das mulheres,

de repente ficou careca; pois a garota tinha arrancado

pela raiz os brancos e a velha, os negros. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.3

Esopo para um certo sujeito sobre o êxito dos maus.

Um sujeito, ferido pela mordida de um cachorro bravo,

tacou para o maléfico um pedaço de pão tingido com seu sangue,

porque tinha ouvido dizer que era o remédio para o ferimento.

Então Esopo disse assim: “Não faças isso diante de mais cães,

para que eles não nos devorem vivos, 5

quando souberem ser tal o prêmio da má-ação.”

O êxito dos maus alicia a muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.4

A águia, a gata e a javalina

Uma águia tinha feito o ninho na ponta de um cipreste;

uma gata, tendo encontrado um oco no meio do tronco, tinha parido ali;

uma porca habitante do bosque tinha dado cria na parte de baixo.

Então a gata, com fraude e maldade criminosa, destruiu assim

esse casual convívio. 5

Sobe até o ninho da ave e diz: “É preparada uma desgraça

para ti, talvez também para a infeliz de mim.

Pois como vês a javalina traiçoeira cavar a terra todo dia,

ela quer derrubar o carvalho,

para facilmente oprimir a nossa prole no chão.” 10

Espalhado o terror e perturbados os sentidos,

desceu até o quartinho da peluda porca;

“Teus filhos estão em grande perigo”, diz.

“Pois logo que saíres para pastar com sua tenra prole,

a águia está preparada para te arrebatar os porquinhos.” 15

Depois de ter enchido de medo também esse lugar,

a pérfida se escondeu em sua segura cavidade.

Em seguida, saiu à noite na ponta dos pés,

depois que se encheu de alimento a si e à sua prole,

fingindo pavor, fica de guarda o dia todo. 20

A águia, temendo a queda, fica pousada nos ramos;

a javalina, evitando a rapina, não se dirige para fora.

Para que dizer mais? Morreram com os seus de inanição

e ofereceram aos filhotes da gata um amplo banquete.

De quanto de mal um homem pérfido frequentemente causa, 25

a tola credulidade pode aqui ter uma prova.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.