Fedro 1.25

Os cães e os crocodilos

Os que dão maus conselhos a homens cautelosos

tanto perdem tempo quanto são torpemente zombados.

É tradição que, no rio Nilo, os cães bebem correndo

para não serem pegos pelos crocodilos.

Por isso, como um cão tivesse começado a beber correndo, 5

disse assim um crocodilo: “Lambe quanto quiseres devagar;

não tenhas medo.” Mas aquele: “Eu faria isso, por hércules,

se não soubesse que estás desejoso de minha carne.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.26

A raposa e a cegonha

A ninguém se deve prejudicar; se alguém, porém, fizer algum dano,

a fabulazinha adverte que deve ser castigado na mesma moeda.

Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha

para um jantar e lhe serviu num prato raso

um caldo líquido, que de nenhum modo 5

a cegonha faminta poderia degustar.

Quando esta retribuiu o convite à raposa, serviu uma garrafa

cheia de alimento triturado; inserindo nela o seu bico,

ela própria se sacia e atormenta de fome sua convidada.

Enquanto esta lambia em vão o pescoço da garrafa, 10

a ave peregrina, pelo que ouvimos, falou assim:

“Cada um deve suportar com igual ânimo os seus próprios exemplos.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.27

O cão, o tesouro e o abutre

{Este tema pode ser apropriado para os avarentos e para os que,

tendo nascido humildes, se esforçam por ser chamados de ricos.}

Desenterrando ossos humanos, um cão encontrou um tesouro

e, uma vez que violara os deuses Manes,

lhe foi incutida a cobiça das riquezas 5

para expiar sua culpa contra a sagrada religião.

E assim, enquanto vigiava o ouro, esqueceu-se do alimento

e morreu de fome; dizem que um abutre, pousando

sobre ele, falou: “Ó cão, jazes merecidamente,

tu, que de repente ambicionaste régias riquezas, 10

foste concebido numa encruzilhada e criado no esterco.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.28

A raposa e a águia

Os homens, por mais altos que estejam, devem temer os humildes,

porque a vingança é acessível ao hábil talento.

Certa vez uma águia apanhou os filhotes de uma raposa

e pôs em seu ninho para que seus filhos os tomassem como alimento.

A mãe, tendo-a seguido, começou a rogar 5

que não causasse a uma infeliz como ela uma dor tão grande.

Aquela desdenhou, segura certamente em seu próprio local.

A raposa tomou de um altar uma tocha acesa

e cercou de chama toda a árvore,

misturando a dor de seu sangue ao dano do inimigo. 10

A águia para livrar os seus do perigo de morte

entregou suplicante à raposa seus filhos sãos e salvos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.29

O burro rindo do javali

Muitas vezes os tolos, buscando o riso fácil,

satirizam os outros com grave ofensa

e instigam contra si um perigoso risco.

Um burrico, encontrando-se com um javali,

disse: “Salve, irmão.” Aquele, indignando-se, repudia 5

a deferência e pergunta por que gosta de mentir assim.

O burro, mostrando o pinto: “Se dizes que não sou semelhante a ti,

com certeza isto aqui é semelhante ao teu focinho.”

O javali, embora quisesse fazer um nobre ataque,

reprimiu a ira e: “A vingança é fácil para mim, 10

mas não quero me sujar com sangue ignóbil.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.30

As rãs temendo as brigas dos touros

Os humildes padecem quando os poderosos estão em desacordo.

Uma rã no brejo, vendo uma briga de touros,

diz: “Ai, que grande desgraça nos ameaça!”

Perguntada por outra por que dizia isto,

já que eles disputavam a liderança do rebanho 5

e os bois viviam sua vida longe delas:

“A morada está afastada e a raça é diferente;

aquele que, expulso, fugir do reino dos bosques,

virá para os esconderijos secretos do brejo

e pisará em nós e nos esmagará com sua dura pata. 10

Assim o furor deles tem a ver com a nossa cabeça.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.31

O gavião e as pombas

Quem confia a própria defesa a um homem ímprobo,

buscando proteção, encontra a ruína.

Como as pombas tivessem muitas vezes fugido do gavião

e evitado a morte graças à rapidez de suas asas,

o rapinador mudou seu plano para a astúcia 5

e enganou a espécie indefesa com o seguinte dolo:

“Por que preferis levar uma vida cheia de preocupação

em vez de, firmada uma aliança, me nomear vosso rei,

para que, seguras, eu vos proteja de toda injúria?”

Elas, confiantes, se entregam ao gavião; 10

este, tendo obtido o reino, começou a comê-las uma a uma

e a exercer a autoridade com suas cruéis garras.

Então uma das que restavam: “Merecidamente somos punidas.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 1

As abelhas e o pastor

Fábula da abelha e do pastor, a qual exorta a não se auferir ganhos desonestos.

No oco de um carvalho, as abelhas fabricavam mel. Um pastor encontrou-as casualmente e decidiu pegar uma porção do mel, mas elas, vindo daqui e dali, puseram-se a voejar em volta dele e, com seus ferrões, o fizeram recuar. “Vou embora”, disse, por fim, o pastor, “não preciso de mel, se tenho que dar de cara com abelhas.”

As más vantagens são um perigo para quem as persegue.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 31

Esopo 2

As abelhas e Zeus

Enciumadas porque os homens usavam seu mel, as abelhas foram até Zeus pedir que ele as dotasse de força para golpear com os ferrões quem chegasse perto das colmeias a fim de roubar os favos. Mas Zeus se irritou com elas por causa dessa perversidade e determinou que as abelhas, tão logo picassem alguém, perderiam o ferrão e, com ele, também a vida.

Esta fábula cairia bem para homens perversos que se conformam em sair também eles prejudicados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 32

Esopo 3

O abeto e o espinheiro

Competiam entre si um abeto e um espinheiro. O abeto, para se vangloriar, disse: “Sou belo, alto, de bom porte e útil na construção de navios e de coberturas de templos. E você ainda tenta medir-se comigo?”. Ao que o espinheiro respondeu: “Se você se lembrar dos machados e dos serrotes que te abatem, também vai preferir ser um espinheiro”.

[A fábula mostra] Que na vida as pessoas não devem se deixar tomar pelo orgulho, pois a vida dos simples é que é livre de ameaças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 34